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A Terceira Narrativa para o Brasil

Estado “mínimo” ou “indutor do desenvolvimento” são duas falácias, parciais e irreais, segundo Montserrat

O país está dividido entre duas narrativas, como retratou um artigo recente do sociólogo Lucas Fuhr. Mais preocupante que “dividirem” é o fato de que nenhuma dessas narrativas responde a um projeto de país equilibrado e sustentável, eis que são visões parciais, mais “empolgadas” em competir entre si que com o futuro.

Estado “mínimo” ou “indutor do desenvolvimento” são duas falácias, parciais e irreais.

Nenhum país sério do mundo pode prescindir do Estado (vide – o governo americano em 2008 teve de se endividar para enfrentar a crise financeira internacional) e nenhum país desenvolvido pode depender só do Estado, até a China recorreu à abertura econômica para se manter crescendo.

Nossa economia exportadora de minérios e outras matérias-primas, que recompramos depois de industrializadas lá fora, é o que se chama de “baixo valor agregado”, subdesenvolvida. Isso não é um destino, é uma escolha, pois há quatro décadas a Coréia era um país tão atrasado como o nosso e hoje exporta celulares Samsung e veículos Hyundai para o mundo todo.

Educação, ciência e tecnologia são fundamentais para o desenvolvimento, bem como a parceria entre Estado e mercado em um projeto de país. Isso não é uma teoria, é uma mera constatação – fruto do olhar para os países que atingiram outros patamares econômicos e sociais.

Essa “terceira narrativa”, a da realidade, não corresponde à das duas primeiras narrativas que pregam a supremacia recíproca da esquerda ou da direita em suas visões de mundo, de Estado e de sociedade.

Muitas vozes lúcidas, no entanto, praticam esse olhar realista e independente em suas esferas de atuação. O cineasta José Padilha, por exemplo, já mostrava em Tropa de Elite 2 que o combate ao crime organizado e à corrupção, inclusive policial, não se dá no campo ideológico de direita x esquerda, mas sim na esfera ética, do combate à corrupção em todas as esferas.

O ministro Barroso, que em seus votos dá aulas não só de Direito como de consciência cidadã, expressa em sua fala o espírito “republicano”, que significa o respeito à “res pública”, à “coisa pública”, ao patrimônio comum que pertence a toda sociedade.

O espírito público, a consciência cívica, o senso de responsabilidade, o conhecimento técnico e científico, a postura ética, são os valores dos quais mais precisamos nesse momento. Eles não são propriedades de um partido político, nem de nenhum candidato a Presidente, são deveres e direitos de todos nós, cidadãos.

Essa terceira narrativa é tão mais importante, que seremos felizes quando for a primeira.

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Montserrat Martins

Médico psiquiatra.

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