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Como eram os domingos pela manhã

Ayrton Senna fez dos domingos pela manhã, e de algumas madrugadas, momentos especiais para muitos brasileiros. Não tinha vergonha de erguer a bandeira verde e amarela. Ele o fez pela primeira em Long Beach, na Califórnia, por uma razão bastante interessante.

No dia anterior, 20 de Junho de 1986, a Seleção Brasileira, de Zico, Sócrates e Júnior, havia sido eliminada da Copa do Mundo pela França de Michel Platini.

Quando recebeu a bandeirada, Senna parou sua Lotus e pediu uma bandeira brasileira. Na época, Senna era piloto da Lotus-Renault.

Ainda que não fosse adepto do Futebol era torcedor do Corinthians e naquele dia decidiu que se vencesse a corrida ergueria a bandeira verde e amarela, sua determinação em vencer coroou um gesto simbólico, porém cuja proporção o transformou num mito do cotidiano de todo o brasileiro.

A corrida, em si, foi tão marcante que o escritor Garth Stein, na apresentação de seu livro “A Arte de Correr na Chuva”, narrou que naquela tarde “um piloto era, obviamente, mais rápido que os outros. Ele largou na pole position e, depois de perder muitas posições por causa de um problema no pneu, retomou a liderança e venceu a corrida.”

Os anos se passaram e Ayrton Senna da Silva passou a ser Ayrton Senna do Brasil. O “Tema da Vitória”, antes usado para comemorar as vitórias de outros brasileiros, tornou-se a sua marca registrada.

Abaixo, três fotos do circuito de Mônaco, feitas por Gustavo 

O contexto era de um país descrente em seus governantes, mas que se dava ao luxo de acordar cedo aos domingos para desfrutar de um espetáculo em pistas europeias.

O País do Futebol também madrugava para assistir às corridas no Japão e na Austrália. Entre 1986 e 1994 se passaram oito anos e Senna já era tricampeão do Mundo.

No final de 1993 havia saído em busca de bater os recordes de Fangio, à época o maior vencedor da categoria, com cinco títulos mundiais. Aceitou o convite de Sir Frank Williams e passou a guiar aquele que em tese era o melhor carro da categoria, o FW-16.

Ninguém poderia imaginar que um projeto que contava com a participação dos melhores engenheiros do automobilismo viria a falhar, e esta daria cabo a uma fatalidade, o que nos leva para a manhã de 1º de Maio de 1994, no circuito italiano Dino e Enzo Ferrari, próximo à Bolonha.

Dois eventos terríveis já tinham manchado aquele final de semana. Nos treinos de sexta-feira Rubens Barrichelo literalmente decolou e teve a sorte de ter quebrado apenas o braço. No dia seguinte, no treino de classificação, o austríaco Roland Ratzenberger faleceu depois de colisão na curva “Villeneuve”. Já na largada um incidente deixou mais feridos, mas a corrida prosseguiu.

Depois de algumas voltas guiadas pelo Safety Car, Senna, que havia largado na Pole Position, era seguido por Schumacher, passada a reta a sua Williams-Renault se aproximou dos 340Km/h e eis que escuto: “Senna bateu, Senna bateu forte”. Saí correndo em direção a meu Pai e perguntei se era grave, ele apenas balançou a cabeça, em silêncio.

Naquele dia Ayrton Senna do Brasil faleceu, aos 34 anos de idade. Seu funeral parou a cidade de São Paulo, mas há um detalhe que foi revelado alguns dias depois, pois Senna pedira a um de seus mecânicos que lhe conseguisse uma bandeira da Áustria e disse ao seu amigo Galvão Bueno: “eu vou vencer a corrida e homenagear o austríaco”. Seria a primeira vez desde 21 de Junho de 1986 que Senna comemoraria uma vitória sem a bandeira do Brasil.

A mim há um vácuo tão grande quanto a perda de um familiar. Foi a primeira vez que me deparei com a realidade da morte e até hoje sou grato por poder ter visto grande parte de suas corridas, algumas delas épicas e como há pouco espaço apenas sugiro ao leitor o vídeo abaixo.

Deliciem-se com uma volta mágica daquele nos fazia crer que o Brasil pode ser um país justo, igualitário e provido de moralidade e decência.

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