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Em Busca da Agenda Republicana

Muitos anos vêm passando em que os noticiários diários do país dedicam a maior parte de seu espaço relatando casos de corrupção envolvendo a coisa pública, por todo o Brasil. As modalidades de cometimento de todo o tipo de ilícito por parte dos dirigentes públicos são inúmeras e diversificadas.

Infelizmente a sociedade parece já receber com naturalidade esse tipo de notícia. A incapacidade de reação é tanta que um setor da população entende que o problema está na própria democracia, enaltecendo os ditos “bons tempos autoritários”.

A democracia é vista por eles como uma estrutura de poder falida, permeada por agentes corrosivos, incapazes de incorporar os valores genuinamente republicanos. Tal análise está correta no que se refere ao baixo valor dado à coisa pública por nossos atuais dirigentes, mas acreditar que uma intervenção militar seria capaz de resolver isso é uma ilusão.

Os tempos do regime militar foram marcados não só pela violência arbitrária de estado como também pelo patrimonialismo no trato com a coisa pública, em que os militares consistiam na casta de servidores privilegiados. Atualmente, não há razoabilidade em propor restrições aos direitos civis da população, privilegiando novamente a casta militar, em nome de uma “transformação” – a qual, se houvesse, seria para pior.

Antes de mais nada, cabem dois questionamentos: será mesmo que nunca houve tanta corrupção no país ou foram os instrumentos democráticos de apuração e divulgação que se aperfeiçoaram? Trocaríamos o mal estar de uma jovem democracia, em desenvolvimento, pela acomodação do regresso ao autoritarismo do silencio oficial?

O impasse de vivermos numa república comandada por políticos que destratam o que é público, em que a linguagem oficial gira em torno de preceitos que não aplicamos, deve ser encarado à luz do espírito cívico-progressista, isto é, o do aperfeiçoamento e o da transformação cultural. Não se pode confundir a sedimentação das instituições republicanas em si com a baixeza de alguns de seus dirigentes.

As elites políticas somente mudam à base de constrangimento e pressão, sendo o povo quem vai dar o tom sobre quais condutas serão, ou não, reprovadas publicamente. A reação da sociedade deve se basear no estabelecimento de limites no trato do que é público e num constante reforço cultural desses valores – e não na ilusória existência de uma “casta militar” salvadora da Pátria, pronta para assumir o poder.

Neste ano de eleições, é chegada a hora de separarmos o joio do trigo, votando com responsabilidade! A solução está em mais democracia, e isso inclui rejeitar as bravatas de pretensos salvadores da pátria, uma espécie que não tem lugar em democracias maduras.

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Lucas Fuhr

Sociólogo e advogado.

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