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Especulações sobre a demissão de Pablo do Diário Popular

Última atualização: 10h05 de 19/09/2018

Pablo Rodrigues não é mais funcionário do Diário Popular. O jornalista trabalhou 12 anos no jornal, sete deles no cargo de editor-chefe. Em março passado, havia pedido para deixar a função de editor-chefe, quando passou então a ficar responsável exclusivamente por manter sua coluna de opinião chamada MAGIS+, uma das mais lidas no jornal.

Assim que li a primeira coluna dele, inaugurada em 2015, ela me pareceu destoar da linha editorial do jornal, que fez fama pelo tom mais ou menos morno. Com o novo espaço, o editor passou a utilizar com afinco o exercício crítico, algo com que Pelotas sempre teve dificuldade.

Inicialmente semanal, em março passado a coluna passou a ser publicada três vezes por semana. De lá para cá, coincidentemente, se intensificaram as pressões oficiais contra as abordagens que Pablo fazia.

Na hora em que eu li a primeira MAGIS+, lá em 2015, pensei comigo, conhecendo o ambiente local: “Pablo começa neste momento a deixar o jornal”. Pois neste dia 18 de setembro, deparo com a notícia de sua demissão, postada por ele em forma cortês, no facebook. O tom prevalecente é o de agradecimento ao empregador. Em um trecho, a mensagem soa dúbia, quando diz:

“Asseguraram-me que minha demissão não é política. Sendo ou não política, resta uma certeza: a minha saída empobrece a indispensável pluralidade de opiniões que um jornal deve ter”.

A notícia da demissão foi pronunciada ao jornalista pela herdeira-proprietária do DP, arquiteta Virgínia Fetter.

Para quem observa a cena pública local, é justo ter dúvidas sobre a alegação de Virgínia.

Considerando como verdadeiro o motivo da “contenção de despesas”, o jornal deve estar enfrentando uma crise financeira aguda. A demissão de Pablo não é caso isolado. O jornal, que teria por volta de 200 funcionários, vem demitindo profissionais de várias áreas, em pequenos lotes.

O DP parece atravessar uma crise típica das empresas que publicam impressos, por causa do progressivo encolhimento do número de assinaturas e proporcional redução do número de anunciantes, que cada vez mais vêm abandonando o papel pela internet, muitas vezes anunciando exclusivamente, por conta própria, nas suas próprias páginas nas redes sociais, inclusive com impulsionamentos de postagens no facebook.

Até onde pude apurar, a coluna de Pablo era muito lida, como ele escreveu no face. Justamente por esse motivo, a página era patrocinada, e o patrocinador não retirou o patrocínio, o que enfraquece o motivo oficial.

Pablo respondia pela única coluna que era francamente crítica a ações e omissões da prefeitura, como fez no caso dos exames de pré-câncer. Criticou muitas vezes a prefeitura, algumas vezes criticou signos conservadores, como o projeto Escola Sem Partido, que chegou a ser apresentado para virar lei pelo vereador tucano Enéias Clarindo (depois retirado). Criticou ainda os reacionarismos de Bolsonaro, no estrito sentido da palavra.

Ele fez tantas críticas naquele viés que é capaz de os menos lúcidos terem interpretado suas abordagens como típicas de uma mente vermelha, quando no fundo elas não eram mais que a expressão da cidadania, humanidade e liberdade de pensamento que deve ter um colunista de “Opinião”.

Outro indicativo… Corre o boato de que, dias antes de demissão de Pablo, um misterioso homem de baixa estatura, calvo no telhado superior e com fios de neve derretida nas laterais, procurou a direção do jornal para reclamar do jornalista. Maneiroso, o homem agiria segundo a seguinte estratégia: nunca pediria a cabeça de ninguém diretamente, pois soaria baixo, algo que sua presunção não toleraria.

Em vez de pedir cabeças, o homem fez fama como “Reclamão periódico” do periódico, inclusive por telefone. Por essa trilha, de grão em grão, a coisa teria contribuído para levar a situação a um ponto em que a Galinha teria enchido o papo.

Pode ser, pode não ser… São especulações comuns em horas como essa, em que veículos de comunicação industrialmente caros para se manterem se tornam cada vez mais dependentes de verba publicitária de governos para sobreviver. Leia-se: expressivos volumes provenientes de impostos que pagamos.

É preciso muita calma nessa hora. Os próximos passos devem fornecer mais elementos para elucidar melhor a natureza das “contenções” do jornal e se elas estão relacionadas.

Que as contas do Diário Popular andam na iminência do vermelho parece óbvio. A questão que sobraria é saber se, por motivo do encolhimento da receita, o jornal teria ou não decidido não desagradar governos (geralmente anunciantes seguros), como a prefeitura, da qual o DP recebe verba publicitária, assim como do governo do estado e do governo federal, dos quais também recebe verba em forma de publicidade oficial.

Por suposto, no sentido comercial lógico, seria bom para a saúde econômica de um jornal se ele amenizasse o tom da cobertura do Executivo local, inclusive, por exemplo, protegendo Eduardo Leite, que está indo bem nas pesquisas para governador. Mal não faria também maneirar nas críticas à Bolsonaro, que já está no segundo turno.

Não que seja assim, mas mal não faria, comercialmente, num momento de crise.

Lembre-se: pelos teor e tom, os textos de Pablo não eram submetidos ao Departamento Comercial; por suas manifestações, ele sempre escreveu com liberdade, pautado por princípios iluministas, da prevalência da razão sobre as conveniências. É sabido que seus artigos provocavam reações na prefeitura, com a prefeita Paula Mascarenhas chegando a visitar pessoalmente a proprietária do jornal, para pedir “maior equilíbrio” nas abordagens.

A postagem em que Pablo dedilhou o anúncio da sua demissão do DP havia recebido, até 10h05 desta quarta-feira (18), 812 reações, uma esmagadora maioria de pessoas solidárias a ele e, em alguns casos, como fez o radialista Edson Planella, aludindo à política e à censura para explicar a saída do colega. Além daqueles cliques, a postagem, até aquela hora, havia recebido 241 manifestações de solidariedade na forma de comentários.

Quando foi igualmente demitido neste ano, da Rádio Universidade (RU), Planella foi ao facebook afirmar que sua demissão havia ocorrido depois de pressões da Prefeitura e da Reitoria da UCPel, por críticas dele ao Executivo local, anunciante da RU. Corajosamente, Pablo publicou um desagravo ao colega via face, criticando duramente a Prefeitura e à Reitoria, creditando a eles a responsabilidade pela demissão do radialista e se solidarizando com ele.

“Falo por mim”, ressaltou Pablo no texto.

Agora foi a vez de Planella devolver a solidariedade. Ele comentou na postagem em que Pablo anuncia sua saída do DP:

“Fazer jornalismo com independência em Pelotas é o maior desafio, vivemos a época dos senhores feudais, sempre tivesses uma postura ética, correta e com princípios, fosses arrojado em tudo que coordenasses. Seria mais fácil ceder pressões e evitar perturbações, mas o verdadeiro jornalista faz o que fizesses, cabeça erguida e sou teu eterno admirador”.

Não é possível afirmar com segurança que Pablo e Planella foram abatidos por franco-atiradores de cores partidárias em disputa por mais poder, embora nos bastidores seja a versão que prevaleça. No máximo, podemos hoje procurar enxergar a verdade na análise do conjunto dos fatos e sinais.

Por ainda falar nisso, outro sinal: domingo passado, dia 16, dois dias antes de degola de Pablo, a Coligação de Eduardo Leite a Governador foi à Justiça Eleitoral contra o Amigos de Pelotas, acusando o site de veicular conteúdos prejudiciais à imagem do candidato e requerendo que apagássemos seis postagens (leia mais aqui).

O Amigos de Pelotas tem estrutura mínima, reduzida a mim e a poucos colaboradores tão espontâneos quanto generosos. Mesmo assim, além de pedir a exclusão das postagens, a Coligação de EL ainda requereu que eu pague R$ 30 mil a título de indenização.

Com os fatos e as circunstâncias citadas neste post, é possível estabelecer uma conexão, um nexo e formar um juízo inicial.

Cedo ou tarde, a verdade aparece, mesmo que aos poucos. Quando isso acontece, todos ficamos menos hipócritas e mais alertas para a realidade que nos cerca, por vezes manifesta na pretensão do sufocamento.

Minha solidariedade ao Pablo, ao Planella e a todos os que, em respeito à dignidade da malfadada profissão de jornalista, se importam com a vida e com quem dá valor a ela.

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