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Memórias de um peloteiro: Aquários, Aconchego

“O Aquário me parece isso: um recreio sem fim” (Rubens Spanier Amador)

Dias atrás, consultando um site de buscas, soube que o Palácio do Comércio de Pelotas foi inaugurado em 1942. No térreo desse edifício construído na esquina da XV com a Sete instalou-se no ano seguinte o Café Nacional, logo chamado de “aquário” porque era todo envidraçado.

Desde o primeiro momento o apelido pegou, mas somente em 1970 o nome foi trocado. E pouco mudou desde então. Até hoje é assim: graças a um vislumbre de fora, alguém pode decidir se o momento é propício para entrar imediatamente ou deixar para mais tarde. Afinal, pode estar lá dentro um credor, um desafeto, um inimigo.

O Aquário é um ambiente democrático, mas não exatamente cristão. Lá dentro rolam boatos, conchavos, fofocas, negócios, notícias. Meias verdades e mentiras por inteiro.

Entrei nesse recinto pela primeira vez em 1965, o ano em que ganhei o primeiro salário. Foi nos primeiros dias de outubro. Desde setembro eu era redator de notícias da Rádio Tupanci.

Peguei aquele monte de dinheiro, 56 mil cruzeiros novos, e saí pagando as dívidas. A maior era com o Bar São José, na esquina da XV com Senador Mendonça, onde a família da Zeni servia refeições.

 Também zerei a conta na república onde morava ao lado de uma dúzia de fronteiriços que estudavam no Gonzaga ou na Agronomia. Alguns nomes ainda batem ponto na minha memória: Bernabé, Glênio, Claudio, Brum, Lannes, Picucho… Além do aluguel, era preciso pagar a água, a luz e o telefone (nº 42-78). Tudo somado, a mensalidade não passava de 13 cruzeiros novos. Reajuste? Nem pensar.

Localizado na Senador Mendonça 10, o antro era conhecido por JUC, sigla da Juventude Universitária Católica, nome alusivo ao bispo que, segundo a lenda, havia intercedido junto à proprietária do imóvel para que o alugasse aos pobretões vindos interior para estudar na metrópole da Zona Sul. Se não locatário, D. Antonio era o fiador da locação (a JUC durou por vários anos, até que o sobrado decrépito foi interditado por vazamentos insanáveis).

Com o dinheiro que sobrou, comprei uma roupa na Camisaria Paris-Londres e, para encerrar minha jornada de glória no mundo dos profissionais da imprensa, adentrei sozinho o sagrado recinto do Aquário.

No meio daquele burburinho de pardais em fim de tarde, não me intimidei: fui ao caixa (na extrema direita, ao fundo), comprei uma ficha e me aproximei do balcão. Era negro, de mármore, ou será que minha memória o confunde com outro balcão de outra cafeteria de outra cidade?

O primeiro café ninguém esquece. O cafezinho do Aquário servido em xícaras escaldadas vai queimar-me os beiços pelo resto da vida, mas eu nunca vou desfazer desse lugar. É um dos 10+ da cidade. A própria imagem do aconchego numa das cidades mais frias do Brasil.

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