ComportamentoEditorialEleiçõesHistórias TopOpiniãoPelotas

Nenhum argumento alivia a culpa da prefeitura no caso dos exames de pré-câncer

O caso da insegurança dos exames de pré-câncer de colo de útero feitos através do sistema municipal de saúde é delicado demais porque envolve vida e morte. Não é coisa a ser explorada politicamente. A gente fica até com medo de comentar, com medo de ser mal interpretado.

Mas, depois do primeiro, surgiu um segundo corpo.

Emanuele, 34 anos, sepultada sábado retrasado, descobriu o câncer no último estágio apenas dois meses depois de o laboratório SEG, conveniado do município, atestar que ela tinha o útero saudável.

Uma segunda mulher, Ana Maria, está se tratando tardiamente. Como Emanuele, os exames de Ana davam normal, mas a doença também avançara ao último estágio. Ela fez novo exame depois de iniciar o tratamento. O resultado do SEG – pasme – continuou a dar normal, embora ela já estivesse (está) doente.

Outros posts sobre o caso

A dupla ocorrência indica que há de fato problemas nos exames.

O caso está sendo investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal. Uma CPI foi instaurada na Câmara, mas, contaminada politicamente, é provável que não será ela a dar a última palavra sobre o caso.

Dezessete mil lâminas foram recolhidas pelo MP e pela Polícia Civil para reanálise pelo Instituto Geral de Perícias, órgão do governo do estado, que vai fornecer as contraprovas.

Pode-se imaginar o clamor se outras mulheres estiverem doentes.

Por razões de humanidade, queira Deus que ninguém mais esteja na situação de Ana Amaria ou tenha encontrado destino igual ao de Emanuele.

É obvio que a vida humana importa mais que a política. É chocante ver o instinto de sobrevivência política tentando falar alto numa hora assim.

Dito isto, VAMOS AO PONTO:

Em julho de 2017, UM ANO ATRÁS, um grupo de médicos e enfermeiros da UBS Bom Jesus entregou à secretária de Saúde Ana Costa um documento assinado alertando para a insegurança nos exames de pré-câncer (veja abaixo), chegando a apontar o caso concreto de uma paciente que tinha câncer apesar dos resultados darem negativo.

Na verdade, um primeiro alerta havia sido feito por uma médica em 2015, época do governo de Eduardo Leite. Na ocasião a secretária de saúde era Arita Bergmann, tendo Ana Costa como seu braço direito na pasta.

Alerta feito em 2017 à prefeitura: apesar da gravidade, prefeitura ignorou o caso

Fiquemos no segundo alerta. O documento dos profissionais da UBS Bom Jesus registrou que de 2014 a 2017 todos os resultados dos Papanicolau davam “negativos”, fato incomum em desacordo com os indicadores de incidência da doença na cidade e no País, dando margem à suspeita de que os exames eram feitos por amostragem ou incorretamente.

Diante de uma denúncia assim, o que deveria ter feito a secretária Ana Costa?

Deveria providenciar averiguação. Encontrando problemas, a prefeitura deveria avisar a população.

Nem uma coisa nem outra, porém, ocorreram.

O alerta morreu silenciosamente numa gaveta ou em lugar pior. Por quê? Como se explica essa irresponsabilidade?

Esse é o ponto. Isso é o que temos de entender.

Negligência

No debate da Band, na quinta-feira retrasada, o candidato Eduardo Leite disse que “a denúncia foi feita por um jornal”, tentando sugerir que os denunciantes teriam motivação política.

“A denúncia foi feita ao seu governo, em 2015”, corrigiu um oponente no debate, referindo-se ao primeiro alerta. Corrigiu certo, esquecendo-se de acrescentar que o alerta seria renovado em 2017, mas mesmo assim – frise-se – o governo NADA FEZ para esclarecer o caso.

Essa negligência anula qualquer tentativa de EL alegar “motivação política”. Na verdade, EL, prefeita Paula Mascarenhas e Ana Costa, que segue no cargo, ficaram sem respostas por um motivo: não há o que dizer que seja convincente.

Houve negligência e ponto final.

Descumprimento à portaria 3.888

Três famílias até agora anunciaram que vão processar o Município por negligência e o laboratório por negligência ou imperícia.

As advogadas alegarão também que a legislação (Portaria 3.388, de 30 de dezembro de 2013) determina que o Executivo deveria fiscalizar os exames periodicamente, mas que a prefeitura não o fez por sucessivos anos.

Tags
Ver Mais

Conteúdos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Close