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Nós, brasileiros, somos uns “sobreviventes”

Vamos precisar de três Copas do Mundo e duas Olimpíadas para refazer as amizades perdidas nessa eleição

Os brasileiros não são, em sua maioria, corruptos nem fascistas, mas tratarão a si mesmos por esses adjetivos por um bom tempo, como parte da guerra política instalada no país. Como diz um meme satírico no facebook, “vamos precisar de três Copas do Mundo e duas Olimpíadas para refazer as amizades perdidas nessa eleição”.

As acusações fazem parte de uma guerra psicológica induzidas por fabricantes de memes para redes sociais, cujos criadores são muito bem pagos para produzir simplificações da realidade, de modo a pressionar as pessoas a seguirem sua lógica. Assim, quem simpatizar com qualquer candidatura tachada de “esquerda” é chamado de “corrupto”, “comunista”, “defensor de bandidos”, quem simpatizar com a direita é rotulado de “fascista”, “racista”, “elitista”, etc. É da guerra política, onde o objetivo é impactar a opinião pública, criando uma pressão psicológica irresistível sobre os indivíduos, buscando sua adesão contra os adversários políticos.

Está na moda essa agressividade toda, nenhuma voz racional consegue se erguer mais alto que essa paixão política que toma conta do país, nesse momento. Aos que não acreditam em passionalidades, resta refletir sobre o que está por trás disso tudo. Que povo é esse afinal, que se divide em percepções extremas da realidade?

Se há um traço em comum entre os brasileiros, nesse momento, além dessa passionalidade, é o instinto de sobrevivência. A esquerda tem como bandeira o combate à fome e a direita, o combate ao banditismo. Nada é mais essencial que essas duas questões, não ser vítima da fome nem de bandidos. Quando o brasileiro adere a uma dessas bandeiras ele não está fazendo isso por conivência com qualquer coisa que seus candidatos façam, ou digam. Ele está pensando na própria sobrevivência.

Somos um país de imensas riquezas, muito mal administradas, com uma cultura individualista, onde as pessoas se reúnem em grandes festas populares (sejam religiosas como procissões, ou pagãs como as micaretas), mas dificilmente se reúnem para debater problemas. Tente montar um seminário sobre Economia ou Desenvolvimento Sustentável, para ver quantas pessoas comparecem. Esperamos que “os outros” resolvam nossos problemas, aí que é surgem os “salvadores”.

Além de individualistas não costumamos respeitar autoridades, como decifrou Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, segundo o qual oscilamos entre períodos de anarquia e tirania justamente por isso, pois não temos disciplina até acharmos que temos de nos sacrificar por “algo maior” e entregamos o poder a um tirano – diagnóstico histórico feito meio século atrás. Não somos organizados, não somos previdentes, vivemos por impulso a cada momento. Somos sobreviventes.

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Montserrat Martins

Médico psiquiatra.

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