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Nosso relacionamento com a natureza precisa ser diferente

CAPITAL NATURAL +

Marcelo Dutra da Silva | dutradasilva@terra.com.br

Algo terrível acontece a nossa volta e nem todos estão se dando conta do perigo. Ultrapassamos os limites impostos pela natureza e a velocidade de consumo dos recursos atingiu taxas sem precedentes na história. A forma mais evidente do nosso descompasso está no aumento populacional.

No final da segunda guerra somávamos pouco mais de 2,3 bilhões de indivíduos, em outubro de 2011 chegamos aos 7 bilhões e em 2017 alcançamos os 7,6 bilhões. E tudo indica que vamos superar, se confirmadas as expectativas de crescimento populacional, descritas no relatório da ONU “Perspectivas da População Mundial” – Revisão 2017, que prevê chegarmos aos 9,8 bilhões de pessoas em 2050 e a incrível marca dos 11,2 bilhões em 2100. O que quer dizer que a cada minuto colocamos mais pressão sobre a Terra, que é sentida com maior intensidade onde predominam povos com menor grau de desenvolvimento e pobreza.

Estamos elevando a demanda por alimentos, por água e por recursos não renováveis. Aceleramos o ritmo de destruição dos habitats e dos serviços prestados pela natureza. A paisagem está ficando diferente e parte do que foi perdido não poderá ser recuperado. E perceba que há uma mensagem nisso! Devemos repensar nossas escolhas, pois adquirimos um poder tão grande de transformar as “coisas” que não podemos continuar com os velhos métodos, alguns, os mais rudimentares, exatamente os mesmos praticados no período que vivíamos em cavernas.

Desde a descoberta da agricultura ocupamos o espaço e cultivamos a terra da mesma forma. Mas agora a nossa habilidade de transformar precisa acompanhar a demanda e as consequências podem ser desastrosas. Formamos uma ideia equivocada quanto a disponibilidade dos recursos. Passamos a acreditar que os recursos são infinitos, o que não passa de uma ilusão; que podemos explorar o ambiente, produzir bens e consumir indefinidamente; que a economia é capaz de resolver todos os problemas, uma ilusão ainda maior. Afinal, não existe desdobramento econômico na ausência de materiais primários, que são gerados no nível da capacidade de suporte dos sistemas.

Enquanto isso, a Terra aquece e aqueles que mais contribuem para o aquecimento global são os que mais resistem ao controle e redução das emissões de gases do efeito estufa. Apesar dos líderes das nações mais desenvolvidas do planeta terem firmado compromisso histórico de reduzir as emissões, seguindo as recomendações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), alguns países ainda evitam endossar quaisquer metas imediatas e vinculantes para suas economias, a exemplo da infeliz iniciativa dos Estados Unidos da América que abandonou o acordo de Paris, firmado em 2015.

No Brasil, a maior parte das emissões está condicionada ao desmatamento e queimadas. E esta é a principal motivação do plano de desmatamento zero, promovido pelo Ministério do Meio Ambiente. Somos signatários de uma porção de acordos e estamos comprometidos com a ideia de redução das nossas emissões. Mas não é tão fácil. A nossa economia está baseada na atividade primária, que depende do uso extensivo do solo, trazendo mudanças e perdas irreparáveis, sobretudo quando praticadas sem atenção às técnicas conservacionistas e em desconformidade com a Lei e princípios fundamentais dos ecossistemas.

A derrubada de florestas para a criação de gado e produção de carne bovina ganha repercussão internacional com o boicote das redes supermercadistas que prometem não comercializar carne procedente de área de corte ilegal. Alguns países, inclusive, já manifestaram contrariedade às importações de produtos do desmatamento ilegal, particularmente da Amazônia. No entanto, a redução do desmatamento ainda é muito tímida e é preciso uma posição mais firme e fiscalizadora por parte das autoridades públicas. E é isso que vem agravando o problema, a falta de políticas claras e comprometidas com a ideia de conservação e uso sustentável dos recursos.

No Cerrado, o cultivo de soja vem reduzindo e descaracterizando a paisagem de uma das mais importantes expressões da biodiversidade brasileira. E no Sul a história não é muito diferente. Primeiro a pecuária predatória, depois os monocultivos de eucalipto e agora a soja, o vilão da vez, que vem contribuindo para a redução das áreas naturais campestres, o que precisa ser melhor compreendido pelas pessoas.

A fragmentação das áreas abertas de campo, com a introdução de elementos arbóreos poderá reproduzir efeitos que só serão medidos na escala de tempo. Mudanças que vão além da substituição de habitat ou exclusão de espécies. As barreiras geradas pelos maciços de eucalipto talvez interfiram na trajetória evolutiva dos campos, criando as condições de mudança para as áreas não substituídas pelo cultivo. Entretanto, a velocidade de expansão da soja sobre os campos naturais é tão grande que talvez nem de tempo para que mudanças na fisionomia sejam percebidas e tudo seja perdido antes.

Portanto, precisamos melhorar a nossa percepção e mudar o nosso relacionamento com a natureza. Estamos fazendo errado e multiplicando os erros. As nossas ações não visam consequências. Os nossos instrumentos de licenciamento e controle ambiental mostram-se falhos e quase nunca consideram efeitos de contexto. Dispomos de um arsenal legal de fazer inveja, mas a ineficiência no processo de fiscalização e de punições mais severas acaba patrocinando o exercício de práticas lesivas, o abuso e a impunidade. Enquanto isso, boa parte da academia assiste estática, com um mínimo de envolvimento, quase sempre presa ao plano teórico, com pouca aplicação prática e busca de soluções aos problemas que nos rodeiam.

De outra parte, aqueles que se colocam no interesse de nos representar não falam ou fazem questão de esquecer os problemas ambientais e questões do meio ambiente que precisamos enfrentar com responsabilidade. Precisamos mudar a realidade e precisamos começar a decidir hoje o futuro que queremos para os nossos filhos e netos.

√ Marcelo Dutra da Silva é Ecólogo e Professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande.

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