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Ocorrências criminais desafiam as estatísticas pelotenses

A criminalidade em Pelotas parece com o chafariz da praça Coronel Pedro Osório: veio para ficar entre nós. De um jeito ou outro, o sangue que corre é produto de vindita. Os motivos das vinditas não se restringem à injustiça social, já que sobrevivem mesmo em sociedades igualitárias, como na União Soviética, para ficar num exemplo de proporções dramáticas, com mais de 20 milhões de mortos pelo regime de Stalin.

“Não há assassinatos no Paraíso” é um ditado comunista. Sendo a URSS um “paraíso de igualdade”, as pessoas não teriam razão para matar um camarada. Ocorre que os assassinatos continuaram, seja por ação do regime contra adversários, seja em crimes resultantes de pulsões pessoais incontroláveis. Há um filme interessante no Netflix sobre isso, Crimes Ocultos.

O comportamento humano é inexplicável, como a vida. Também no Netflix há uma série chamada Mind Hunter. É sobre dois policiais que criaram o departamento de Psicologia Criminal do FBI, para estudar a mente dos assassinos. Teria sido com base no estudo dos agentes Holden Ford e Bill Tench que foi cunhado o termo “Serial Killer”.

Holden e Bill saíram em viagem pelos Estados Unidos, entrevistando em penitenciárias estaduais autores de crimes horrendos – e “inexplicáveis”.

A maioria dos criminosos de Mind Hunter e de filmes americanos e europeus – baseados na realidade – não são como os brasileiros. Estamos “atrasados” também no quesito da criminalidade. Lá fora, eles costumam ser donos das vans utilizadas nos crimes, sequestram e escondem pessoas em porões de casas próprias, muitas vezes têm emprego, além, claro, de estoques de cerveja nas geladeiras.

Naqueles lugares a motivação criminal ultrapassou o interesse puramente financeiro. Em larga escala, a motivação deriva de estágios posteriores à satisfação do consumo, como esses garotos que, mesmo com acesso aos confortos materiais, de uma hora para outra saem metralhando colegas nas escolas. Para a gente ver como a questão é complexa, o maior acesso ao consumo não elimina os conflitos e a barbárie.

Em Pelotas, mais de 90% dos crimes de sangue ocorrem em bairros pobres, em geral decorrentes de acertos de conta entre gangues do tráfico de drogas por território. O objetivo, a rigor, é dinheiro. Dinheiro, em boa parte da cadeia, para sobreviver, não esbanjar. Um estágio primitivo, em proporção ao tamanho da injustiça e da desigualdade brasileiras.

Os homicídios, que nos últimos tempos pareciam ter diminuído na cidade, voltaram a fazer vítimas. Domingo retrasado, Thainã Leal, de 16 anos, morreu espancado por um grupo no Fragata. Na sexta 29, o proprietário do Mercado Nascer do Sol, no Areal, encontrou a morte depois de levar tiros; outra pessoa presente no local também morreu por arma de fogo. No mesmo dia, Vinícius Pereira, de 18 anos, perdeu a vida à bala no loteamento Dunas. Um dia depois, três pessoas sofreram tentativas de homicídio no Dunas e no loteamento Vasco Pires, também no Areal.

Nos últimos 15 dias a prefeita saiu em viagem para falar sobre o Pacto pela Paz pelotense, concebido por consultores da Comunitas, parceira da prefeitura. Esteve em pelo menos três cidades apresentando supostos números da redução da violência, propagandeando – na prática – o serviço das consultorias contratadas da Comunitas.

A iniciativa do Pacto é louvável, assim como a criação inédita da Secretaria Municipal de Segurança. Ao criar a SMS, a prefeita trouxe para o âmbito local uma responsabilidade que constitucionalmente é dos estados e da União. Comunitas e Secretaria têm buscado a integração colaborativa com as polícias, o que também é louvável.

É precipitado, porém, comemorar supostos indicadores positivos agora, como faz a prefeitura, pois, mesmo com as ações em andamento, as circunstâncias que produzem as pulsões que levam ao crime estão ativas, enraizadas. É um trabalho para as gerações futuras, algo que exigirá humildade, compromisso de vários governos e constância de ações em todos os níveis, na educação, na saúde, na assistência social, inclusive na reorganização do estado.

Para manter políticas públicas efetivas contra a criminalidade, a prefeitura precisará, sobretudo, do mesmo elemento que buscam os criminosos brasileiros: dinheiro. Reais que não chegam de Brasília aos municípios no volume necessário porque a arrecadação é concentrada em âmbito federal e os criminosos de colarinho branco não se cansam de nos roubar.

Em matéria de segurança, e tudo o mais, inclusive essa miragem que é “a construção de um País”, estamos ainda na fase de bebês: engatinhamos.

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