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Cinema: ‘Todos queremos ser lembrados, mesmo que um dia sejamos esquecidos’

Sombras da Vida conta a história de um casal comum que tem seus planos interrompidos quando um acidente de carro tira a vida de C (Casey Affleck). No entanto, ele retorna para casa em forma de fantasma para tentar consolar sua amada, M (Rooney Mara).

Na forma de um clássico fantasma, com um lençol branco por cima do corpo e dois furos no lugar dos olhos, ele percebe que não é afetado pelo tempo, sendo apenas um espectador da vida que antes lhe pertencia.

À medida que vê sua esposa seguir em frente, ele embarca em uma jornada melancólica por lembranças e histórias. Um dos grandes destaques do filme está em sua passagem de tempo, que se torna praticamente um personagem dentro da trama. O tempo é retratado de forma brilhante. Em apenas algumas cenas, semanas, meses e até décadas se passam.

O diretor e roteirista David Lowery constrói uma trama existencial em cima de pequenos detalhes que vão surgindo conforme os personagens evoluem. Com isso, sequências que parecem sem sentido ganham força no decorrer da narrativa, permitindo que o espectador absorva todas as informações e compreenda seus significados.

A fotografia em tons pastéis e o formato quadrangular da imagem, com as pontas arredondadas, deixa a sensação de que estamos olhando através de algo mais antigo, o que favoreceu na predominância do fantasma nas cenas.

Com poucas falas, planos longos e um ritmo lento, vemos um longa com uma forte mensagem em seu final. Com essa ferramenta narrativa, os detalhes são essenciais para interpretar e, principalmente, sentir a produção.

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O melhor exemplo é uma cena com mais de cinco minutos de duração na qual M come uma torta deixada na cozinha. Ao fundo, o fantasma acompanha atentamente a viúva devorando a torta, com uma mistura de sentimentos que vão da raiva à tristeza, em uma fantástica construção do luto e da solidão. É uma cena linda e ao mesmo tempo desesperadora de assistir, absorvidos pela incrível atuação de Rooney Mara.

Simples, mas extremamente sensível e poético, Sombras da Vida impressiona por ser um filme contemplativo sobre vida, morte e tempo. Um filme para poucos, e que nos faz pensar sobre como a vida é passageira e muitas vezes ficamos presos a algo que pertence ao passado.

A questão é de como queremos ser lembrados, mesmo que um dia todos nós sejamos esquecidos.

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Déborah Schmidt

Administradora de empresas.

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