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Um relato de propina no Sanep

Há alguns meses um empresário da construção civil me chamou na sala de sua empresa e fechou a porta. Disse que queria me contratar para dar assessoria de imprensa.

Em seguida, em tom de cumplicidade e espanto, ele me contou que se sentira constrangido a pagar propina no Sanep, do contrário seus empreendimentos seriam paralisados pela burocracia.

Não entendi as conversas cruzadas, a mistura de oferta e confissão.

A cobrança, segundo ele deixou claro, foi feita por um servidor de confiança do governo filiado ao PTB – partido aliado da prefeita (vice-prefeito é da sigla) e do pré-candidato Eduardo Leite na corrida ao Piratini, que cedeu a vaga de vice na sua chapa ao PTB.

Em troca, o Sanep deixaria de cobrar medidas mitigatórias para um empreendimento.

Dias depois, eu recusei a oferta de trabalho do construtor.

Procurei um amigo que trabalha em cargo de confiança na prefeitura, assessor especial da prefeita. Contei sobre o relato da propina, pois julguei que algo pudesse ser feito para impedir o crime.

Cerca de quatro meses se passaram sem que eu publicasse uma linha sobre o caso no Amigos de Pelotas. Nesse período, a prefeitura não tomou providência alguma e o amigo a quem eu narrara o fato se afastou de mim por completo.

Publiquei no Amigos de Pelotas, então, duas notas sobre o tema, em tom de alerta, sem citar o nome de ninguém. É direito do jornalista preservar as fontes de informação.

Um mês depois recebi um ofício do Sanep, informando que a prefeita pedira investigação do fato no Ministério Público, ressaltando que as notas publicadas no site não traziam provas. Nem poderiam…

Achei que eu fosse ser chamado no MP, mas acabei sendo chamado na polícia. Fui lá e, na presença de uma delegada e de uma escrivã, relatei o que se passou, sem citar as fontes.

Me surpreendi que não tenham me chamado para um depoimento no MP, em condições menos “alarmantes”.

O que importa, porém, é que a polícia poderá, talvez em conjunto com um promotor, apurar o caso. Eles têm condições legais para isso.

A delegada pareceu entender que não basta procurar papéis, porque o delito narrado a mim ocorreu, pelo que entendi, pela não cobrança de medidas mitigatórias para a obra.

Se acharem algo, será pela constatação de que o Sanep deixou de cobrar da empresa o pagamento de mitigatórias.

Mitigatórias são obras que uma construtora deve custear como compensação por eventuais prejuízos ao ambiente.

Faço votos que a polícia e a promotoria deslindem o caso.

Hoje em dia o amigo da prefeitura a quem contei o fato, quando me vê, não atravessa mais a calçada para conversar.

Eis os fatos até aqui.

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Um comentário

  1. Uma pena que o tal empresário nao tenha tido coragem para armar um cilada com a polícia e ou MP e colocar esta situação toda a luz da Justiça e opinião pública!
    A corrupção anda solta, é dever do empresário denunciar, somente com postura assim o nível de corrupção diminuirá!
    Ano de eleições….

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