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Uma coisa que pensei sobre Chaplin

Revendo Chaplin, pensei:

Entre outros motivos, foi um gênio superior porque fez as plateias rirem de si mesmas sem que se sentissem ofendidas por isso.

O governo americano não achava muita graça, tanto que o expulsou da América, por suspeita de ser um agente do “comunismo”, no mínimo um agitador de massas.

Muita gente acredita que Chaplin era um humanista, inclusive eu. De um jeito ou de outro, foi mesmo. Provavelmente não de caso pensado, mas de caso vivido.

Mas, vendo e revendo seus filmes, as situações que imaginou, todas as coisas que disse sem recorrer à palavra – asilado na mímica – suspeito, como outros já fizeram, que no fundo era um misantropo.

Por incrível que pareça, talvez não gostasse muito de gente. Não há nenhum mal nisso. Ele passou o diabo na infância, pai alcoolista, mãe louca, orfanato, miséria.

Um gênio é indecifrável.

Em sua autobiografia, escreveu que os enredos de seus filmes consistiam não mais do que meter as criaturas em dificuldades e fazê-las sair delas. Claro que foi mais que isso. Certamente teve a ver com sentimento, uma afiação do instinto de sobrevivência.

Esteticamente, abriu caminho até a beleza através da simplicidade. Nesse sentido, acredito que chegou a tocar o dedo de Deus, como na pintura da Criação, por acesso à natureza decadente da vida, desde o início de tudo, na concepção.

“Há beleza numa rosa jogada na sarjeta”, escreveu.

Como artista, zombou da humanidade. Aparentemente com o intuito de redimi-la.

Ele nos legou em celuloide o registro de que, mesmo em condições adversas, mesmo sob penúria, resiste um sentido de beleza na aventura humana, como na flor desprezada.

Continuo sendo seu fã, de qq maneira, inclusive por ter sido capaz de converter seus eventuais piores instintos em tanto talento.

Tenho todos os 80 filmes dele.

Nunca me canso de rever sua obra, por clássica e invulgar, qualidades raras nestes tempos lamentáveis que vivemos.

Os homens que fazem rir valem mais do que os que fazem chorar. Ele fez os dois, ao mesmo tempo, na medida perfeita da arte. E ainda ganhou uma montanha de dinheiro com isso.

* Chaplin afirma em sua autobiografia que, apesar da alardeada melancolia que costumeiramente lhe atribuíam, sua principal marca foi o “otimismo”.

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