De sexta para sábado durmo muito tarde, por vezes depois de os galos cantarem. Gosto da mansidão noturna. Meu pensamento vai longe.
Há pouco, observando da janela do apartamento o manto de luzes que cobre a cidade, imaginei que as estrelas estavam todas no chão. E viajei na fantasia de ter o mesmo ponto de vista de Deus quando olha lá de cima para sua criação.
Outro dia reencontrei um amigo dos anos 80. Num boteco daquela década, ele falou:
“Se Deus criou o universo, teve antes de criar o espaço, para então ir colocando coisas nele, a Lua, o Sol, os planetas etc. Como posso entender que Deus existisse antes de existir o espaço?”
Agora são duas e pouco da madrugada.
Não pretendia voltar a escrever, mas fui levado a fazê-lo por causa de uma pastora que acabo de ver na tevê.
Diante de seu neurótico gestual e de suas palavras vomitadas como placas de chumbo determinadas a salvar a alma dos telespectadores do fogo do inferno, pergunto-me se ela algum dia se fez a pergunta do meu amigo.
A primeira vez que minhas convicções vagamente cristãs foram abaladas, eu adolescia. O culpado foi um tio. Ele tinha um tumor inoperável no cérebro. Falava com dificuldade, fumando cigarros Hilton, um atrás do outro.
Numa festa de família, seu filho e eu discutíamos a existência ou não de Deus. Segurando um copo de conhaque em uma das mãos e o cigarro na outra, o tio apartou a contenda. Pausadamente, dificultado pelo tumor, falou:
“Mesmo que Deus exista, tudo aqui na Terra se passa como se ele não existisse”.
Num livro de Sartre que li anos depois, um trecho dizia que “nada pode salvar o homem de si próprio, nem uma prova válida de que Deus exista”.
Nas suas obras, Kafka falava algo parecido: “Há salvação, só não para nós”.
O problema de ato de questionar é que quando o começamos nunca mais nos livramos dele.
Por causa do tio, dos livros que li e das vivências que tive, passei a suspeitar de tudo, até de mim mesmo, embora a esta altura da vida já não me leve a sério demais, ao menos tento.
Eu não sei se Deus existe ou não.
Na verdade, depois que aprendi a conviver com dúvidas, para mim, não faz diferença. Minha certeza quanto à paternidade divina (seria maternidade?) é a de Sartre.
Como não escolhemos nascer, fomos condenados à vida. Não a qualquer vida, mas a uma vida desprovida de confirmações definitivas, o que, se por um lado exaspera os corações, por outro torna a existência mais interessante.
Contudo, noto que poucos toleram a dúvida.
A maioria se agarra a tábuas de salvação, embora precárias, como o discurso da pastora, pronunciado como raios de luz contra a madrugada.
O que me causa estranheza é constatar até onde os humanos são capazes de ir com suas certezas.
Sinto uma espécie de aflição quando vejo pela tevê aquela multidão de adultos de olhos fechados e braços erguidos aos tetos dos templos, guiados por pastores que parecem, paradoxalmente, possuídos pelo demônio.
Fico chocado ao verificar que, mesmo com todo o conhecimento produzido, continuamos vulneráveis à ação de místicos pregadores, como se fossemos crianças, com medo de pensar por conta própria e de aceitar a precariedade da vida.
Resumindo: se é verdade que fomos criados a imagem e semelhança de Deus, sou levado a concluir que Ele não é lá muito perfeito.
Para ser sincero, tendo a acreditar que, pela grandeza da obra, é inclusive do sexo feminino.
Não sei também se Ela é branca ou negra, nem a orientação sexual, se é que Deus é dado (a) a essas inquietações.
O que desejo dizer é que, se Ela ou Ele não são perfeitos, não podem ter criado o universo, nem respirado antes de existir o espaço e as atmosferas.
Quem criou tudo então?
O ideal é que a resposta me chegasse antes de os galos sacudirem as cristas e cantarem. Porque, quando o fizerem, a mansidão noturna terá ido embora, levando com ela todas as perguntas sinceras que só conseguimos fazer quando as estrelas parecem espalhadas pelo chão.
De uma coisa eu tenho certeza: se inventasse de questionar à tal pastora a existência divina, algo que jamais faria, porque cada um deve ter direito a sua fé, tudo poderia ser muito pior.
Além de me perdoar, seria capaz de orar pela minha alma, me fazendo sentir ainda mais sozinho do que já me sinto.
