A luta política e o seu tempo – a virada de página em prol da liberdade

Todos nós conhecemos alguma pessoa que tem nostalgia de alguma determinada época, ou algum tipo de saudades de um passado que não se repete mais. Vemos isso atribuído às relações afetivas e amorosas das pessoas, mas – pasmem! – também as suas memórias políticas. Não é uma nem duas pessoas que tem saudades “dos bons tempos” de tal governante ou de tal período econômico, mas milhares!

Por um lado, verdade seja dita: nosso momento político e econômico está realmente dramático; nada mais compreensivo que algumas pessoas rememorem eventuais melhores momentos vividos em outras épocas. No entanto, reagir à frustração do presente passa em primeiro lugar por aceitar – para o bem e para o mal – que a história só anda para a frente. Ansiar por modelos passados é uma forma reacionária e ressentida de encarar o presente.

De um lado, existem os que resgatam as memórias da ditadura militar, alegando que “naquela época havia autoridade, ordem e progresso”. De outro existe um grupo menos comum, mas não menos reacionário: os saudosistas do mundo comunista, que apregoam: “naquela época havia oposição à hegemonia capitalista, havia estado social máximo”.

Os dois grupos são mais parecidos do que gostam de admitir, pois se negam a aceitar que algumas conquistas vieram para ficar. Os socialistas defendem que a garantia mínima aos direitos sociais para a população (saúde, educação, etc) justificam não haver pluralidade política e eleições livres em países como Cuba, por exemplo. Os pró-ditadura, no Brasil, justificam que a garantia de segurança nas ruas e a restauração da autoridade policial justifica não haver liberdades individuais e direito ao dissenso político.

Não é possível no mundo de hoje defendermos o afronte estatal à liberdade de expressão, uma vez que a era da Internet ampliou a difusão da informação em proporções nunca antes vistas. Da mesma forma, a defesa de que regimes democráticos busquem a planificação da economia ou o fim da propriedade privada também consiste em anacronismo ideológico; tais bandeiras perderam o sentido desde a queda do Muro de Berlim. Convenhamos que defender a “liberdade”, mas ao mesmo tempo o fim da propriedade privada, designando toda ela ao controle ao Estado (leia-se, arbítrio) é uma ideia tão velha quanto autoritária.

Pensar o presente sem apegos ao passado não significa abandonarmos nossos princípios, mas aceitar o desafio de aplicá-los num outro contexto: o da era da informação digital, da globalização e da pulverização das iniciativas. Nossa era resulta da consagração da liberdade política – como valor e como imperativo moral – ao mesmo tempo em que traz novos desafios relativos à desigualdade social e à falta de oportunidades para muitos segmentos.

O combate à pobreza, ao arbítrio e aos privilégios são pautas do presente, mas sem dúvidas a forma de se combatê-los passa por compatibilizar nossos métodos ao espírito do século XXI.

√ Lucas Fuhr é advogado e sociólogo

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Author: Da Redação

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