Só lembramos o que nos afeta

Estejam seus pais com você, ou não mais, as suas lembranças de família serão dos fatos mais marcantes que viveu com eles. O nosso cérebro não guarda memórias “neutras”, só fixa os melhores e os piores momentos. E mais ainda uma soma dos dois, quando alguém nos ajuda em momentos de dificuldade: aí a alegria do socorro se sobrepõe ao sofrimento que estávamos passando.

Cada pessoa lembra de nós por motivos muito diferentes entre si. Nós não somos “a mesma” pessoa para todos, somos as alegrias ou frustrações que proporcionamos a cada um.

Lembro o que ouvi das pessoas sobre meu pai, que se despediu de nós alguns anos atrás. Cada um tinha uma lembrança diferente dele, cada um o via por um ângulo diferente. Um amigo lembrava dele como o ouvinte mais empático, mais compreensivo. Um neto lembrava dele levando ao colégio e ao futebol. Outra pessoa me falou de orientação providencial que recebeu dele.

A grande maioria era grata por sua atenção e generosidade. Mas já lembro de ter ouvido, anos antes, tanto reclamações de ser um professor rigoroso nas notas da Faculdade de Direito, quanto elogios por ser exigente e obrigar os alunos a estudarem.

Isso vale para pais e filhos, amizades, casais, colegas de estudo ou trabalho. Vale para professores, vizinhos, para chefes que você teve ao longo da vida, nos seus empregos. Com maior dramaticidade, às vezes, para relações amorosas desfeitas.

Nossas lembranças sempre são parciais, nunca são isentas, o que gravamos são momentos que deixam saudades – gestos simples às vezes já proporcionam momentos felizes – ou então que nos dão alívio por terem passado.

Alegria, tristeza, excitação, medo, tensão, ansiedade, alívio, algo essa pessoa lhe fez sentir, para você lembrar dela. Se suas lembranças parecem “prosaicas”, sem maior conotação afetiva, não se engane: nos detalhes do cotidiano muitas vezes encontramos aconchego, pertencimento, reconhecimento, até a rotina pode nos dar alguma sensação de segurança, de estabilidade na vida.

Alguém estar ao seu lado ao longo do tempo, mesmo que pareçam em sua maioria momentos “mornos”, pode ser marcante, sim. Aliás, é importante registrar que muitas vezes os afetos não são reconhecidos em sua importância e valor por serem demonstrados de modo mais sutil, sem ‘ostentação’ afetiva explícita.

Só lembramos o que tem afeto, mas não se engane, nem sempre o afeto é “explícito”. Muitas vezes não valorizamos adequadamente familiares, amigos, ou até uma relação que pareça menos emocionante, mas sentimos falta dessa presença discreta quando ela se afastar de nós. O afeto, afinal, também pode ser inconsciente.

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Author: Da Redação

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