A coação emocional dos tucanos na campanha eleitoral

Parece que estou pegando no pé dos tucanos. Não é isso, viu! Até porque, por segurança, eu descobri que tucano a gente deve pegar é pelo bico, com força. Vamos lá.

Outro dia escrevi sobre o primeiro programa de campanha do Alckmin. Os dias foram passando e uma cena do vídeo não me saiu da cabeça. Você deve saber qual é…

Falei da cena já, mas ela não me deixa. É uma cena em que Dr. Alckmin, com passo humilde, aparece entregando um bolo de açaí para uma convalescente de câncer do Pará que veio se tratar na rede pública de São Paulo.

Essas coisas da velha propaganda política, você sabe como é. O pessoal da equipe, paga com dinheiro dos nossos impostos, canalizados para os partidos via fundos partidário e eleitoral, identifica, entre tantos brasileiros na pior, um cidadão que vem sendo “ajudado pelo Estado”, por um “governante” de olho em postos mais altos.

O “personagem” do filme é escolhido a dedo. A paciente, por exemplo, é da região Norte, onde Alckmin busca tirar votos de partidos concorrentes. Não por acaso também escalaram para o papel uma mulher – tudo se resume a uma questão de “gênero”, no sentido de “tipo”, “construir um tipo”.

A exploração nesses comerciais de pessoas fragilizadas não difere da exploração a que são submetidas (infelizmente de “bom grado”, diga-se de passagem) aquelas pessoas que aceitam aparecer nos programas de domingo do Luciano Huck (Lata Velha…) e outros do mesmo naipe moral.

Todas elas fazem parte de um grande elenco disponível de coadjuvantes, material e emocionalmente, carente. Para esses, a mínima chance de aparição aos olhos do benfeitor é importante, mesmo em posição de “escadas” para os atores protagonistas.

O que torna tudo ainda mais lamentável é que a natureza do negócio é a coação. Como depende do tratamento para recuperar a saúde, a moça do Pará não é louca de não coadjuvar o “político que a ajuda”.

Ao político, porém, em respeito ao ser humano, deveria ser óbvio que não caberia explorar a situação, pois fica claro o prevalecimento dos interesses pessoais e políticos sobre pessoas dependentes do Estado.

No outro artigo sobre o programa de Alckmin escrevi: “O papel de pessoa boa é um dos mais tristes em um político. Há uma mendicância no desempenho, qualquer coisa que subtrai a confiança na humanidade. No Alckmin que vi hoje o político suplantou o médico. O ator suplantou o político”.

Depois fiquei pensando se eu não havia exagerado nas tintas. Muitas vezes a vida me atinge através de lentes expressionistas, com impacto exagerado. Nessas ocasiões, fico na dúvida se minha sensibilidade é exacerbada ou se a vida é mesmo chocante.

Uma coisa eu sei: as pessoas mais ou menos felizes estabelecem uma média na percepção. Mas, me diz aí, quem é que pode ser feliz de verdade com um senso mediano da vida?

Pode haver ingenuidade de minha parte. Acontece que eu (certamente outros tb) não me conformo, e agora?

Quando me lembro de Alckmin avançando em passos “humildes” em direção à moça com câncer do Pará, carregando para ela a “surpresa” de um bolo de açaí (a moça estaria com saudades da fruta típica de seu estado), sinto decepção com o ser humano, entende?

Tudo combinado com o marketing, a moça – para quem sobreviver é, afinal, o mais importante – abriu sorridente o portão da casa onde repousa na capital paulista para receber o bom Dr. Alckmin.

Muitas vezes o corpo fala mais alto que a voz. Pois Alckmin, curvado, com aquela embalagem de confeitaria nas mãos, me pareceu um mendigo passando o chapéu. Troque o bolo de açaí por uma urna e você entenderá todo o asco da cena.

Se observarmos bem, as costas do Dr. Alckmin não estão vergadas por humildade, mas sim por causa do peso da ambição. Eis o x da questão.

O modo de fazer campanha dos tucanos pertence à triste escola da exploração dos humildes.

No programa tucano de ontem para o Piratini, o candidato Eduardo Leite, por exemplo, apareceu numa visita ao Centro de Atendimento ao Autista, uma realização importante de sua gestão como prefeito.

Detalhe: enquanto falava com mães de crianças autistas, seus olhos se mostram marejados.

Não duvido que o tucano pelotense possa ter se emocionado genuinamente, ainda que o motivo não tenha sido exatamente as crianças, mas, digamos, por ventura, um misto de emoções.

A questão, para mim pelo menos, é esta: mesmo que a emoção o tenha tocado, ele não deveria usá-la numa campanha eleitoral, pois, ao fazê-lo, vulgariza os próprios sentimentos, anulando a beleza do momento.

Pois fica evidente que a emoção, que deveria ser íntima, ganha uma etiqueta de preço, para ser vendida como um produto.

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Author: Rubens Spanier Amador

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