Cinema: Happy end

Michael Haneke é, sem dúvidas, um dos diretores mais secos e cruéis do cinema. Não digo em relação à violência, mas sim em construir situações cotidianas com um forte impacto emocional. Após anos de ausência das telonas, o veterano de obras-primas como A Fita BrancaCaché e Amor está de volta com Happy End. Quem conhece sua carreira, sabe bem que o Haneke não gosta é de finais felizes, portanto, desconfie deste título.

A trama é focada na família Laurent em Calais, na França. Georges (Jean-Louis Trintignant) é o patriarca da família. Em sua casa ainda vive a filha Anne (Isabelle Huppert), que gerencia o negócio do pai, está prestes a se casar com um estrangeiro (Toby Jones) e possui sérios problemas com o filho. Seu outro filho, Thomas (Mathieu Kassovitz) acaba de retornar para a casa do pai junto com a esposa e a filha, cuja mãe está internada no hospital após uma tentativa de suicídio.

Logo na sequência inicial, Haneke nos surpreende com uma série de vídeos curtos gravados em um celular. Em seguida, vemos imagens captadas por uma câmera de segurança detalhando um acidente em uma grande obra. Apesar das novidades narrativas, o diretor repete situações vistas em filmes anteriores, com a abertura lembrando a de Caché e o desfecho que remete à temática de Amor.

Michael Haneke: sem concessões a finais felizes

O longa aborda como temática principal a incomunicabilidade, resultado do individualismo dos dias atuais. A tecnologia entra em ação para também ressaltar a dificuldade nas relações pessoais, com referências à gravações feitas através de celular, como o Stories do Instagram e ainda chats como o Messenger do Facebook.

Para isso,  o diretor inteligentemente explora o formato de tela e a estética de cada uma destas mídias sociais, de forma a provocar uma identificação junto ao espectador.

Através de um ritmo lento e a sua famosa câmera voyeur (ao melhor estilo Caché), os personagens surgem em cena em breves conversas que praticamente nada revelam sobre seus atos. Os arcos dramáticos da família são marcados pelo sentimento de incomunicação e isolamento, unidos pela urgente necessidade de ver o mundo pela tela de um celular.

Anne é uma personagem que zela por manter as aparências e que busca sempre contornar os problemas que a cercam, como o desajuste emocional do filho Pierre (Franz Rogowski) e a senilidade e as tentativas de suicídio do pai. Já seu irmão Thomas é um marido infiel e um pai sem nenhuma habilidade com a adolescente Eve (Fantine Harduin).

Em um elenco com nomes consagrados como os de Isabelle Huppert e Mathieu Kassovitz, o grande destaque fica com a jovem Fantine Harduin, que entrega uma interpretação simplesmente fantástica e que possui junto com o igualmente fantástico Jean-Louis Trintignant um dos melhores diálogos do filme.

Em um filme onde todos os personagens são individualistas e estão concentrados apenas em suas vidas, a falta de empatia e de um elo emocional entre os membros da família exalta ainda a indiferença e a frieza que a dificuldade de comunicação dos dias atuais está cada vez mais presente em nossas vidas.

Happy End pode ser considerado um filme inferior de um diretor com uma filmografia tão marcante. Um das produções menos complexas de Michael Haneke, mas ainda sim um filme essencial e imperdível.

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Author: Montserrat Martins

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