OS TRÊS PORQUINHOS E NÓS, BRASILEIROS

O PT chegou ao poder com o slogan “A Esperança Venceu o Medo”. Vista a Lava Jato, que tem sido outro ponto de vitória sobre o medo, talvez agora seja a hora de a “Razão Vencer a Esperança”, porque, me desculpe, as esperanças estão sendo vencidas com frequência muito rápida.

Ainda no terreno da política, outro dia escrevi: “Na minha vida, comecei gostando do antigo MDB, depois PSDB, depois PT. Hoje tenho simpatias pelo Partido Novo, e fico pensando no que, biologicamente falando, poderá vir depois do novo que não seja a morte”.

Um pouco é um jogo de palavras, mas faz sentido pra mim, porque, se depois de todos os terrores que temos enfrentado, se não formos capazes de encontrar uma saída, a morte virá para a maioria da forma mais triste, em vida, como em grande parte já ocorre e talvez explique o sucesso de tantos filmes de zumbis.

Hoje em dia ando numa fase de simpatias pelo Partido Novo.

Fico procurando acreditar em alguma coisa, sabe!

É sempre um processo que exige um desarme dos preconceitos.

O Novo é partido de ideação liberal, ave suspeita no País. Ele prega um ambiente competitivo inspirado no modelo americano, com liberdade econômica plena, Estado mínimo concentrado em segurança, saúde e educação, desoneração de impostos, coisa muito diferente do que temos vivido, e eu diria que, pelo caráter inovador da proposta, sendo o Brasil o país que é, até parece uma “revolução”.

A Psicanálise dos Contos de Fadas é um famoso livro do psicólogo vienense Bruno Bettelheim.

Nele, Bruno procura decifrar as mensagens ocultas nas histórias que nossos pais liam para nós na infância, à luz dos ensinamentos de Freud sobre o Inconsciente.

O conto Os Três Porquinhos, por exemplo. Na terrível versão original, o primeiro porco tem a casa de “palha” derrubada pelo sopro do lobo e acaba sendo devorado por este. Mesmo destino sofreu o segundo porco, que morava em casa de “madeira”.

O único porco que derrota o lobo é o terceiro. Ele mora numa casa feita de “pedras” e, apesar de soprar até pelas orelhas, o rubro lobo não consegue por abaixo o residencial, então resolve invadi-lo pela chaminé, cai num caldeirão fervente e morre.

O psicólogo vienense (tinha que ser austríaco) viu na história uma metáfora das fases do desenvolvimento infanto-juvenil, correspondente às três etapas descritas por Freud sobre o desenvolvimento da mente humana (fases Oral, Anal e Fálica), segundo ele etapas a percorrer até que alcancemos o amadurecimento da personalidade, quando ocorreria a vitória do Instinto de Sobrevivência sobre os instintos destrutivos da aurora da vida, quando nos arriscamos mais, sem medir as consequências dos nossos atos.

A interpretação sobre a história de Os Três Porquinhos é só uma percepção, mas gosto dela, mesmo que por miragem, pois se encaixa como luva macia no raciocínio analítico, além de encontrar correspondência no raciocínio político.

Gosto dela ainda porque “cutuca” a mania humana com tríades (“três” Mosqueteiros, “três” reis magos, “três” macacos que, juntos, não ouvem, não falam e não veem, não se comunicam com objetividade enfim, e por aí vai).

A comparação entre a teoria freudiana do desenvolvimento e o relato de Os Três Porquinhos vale como metáfora para outras situações, como, em geral, costumam valer todos os relatos fictícios, que afinal são expressões de instintos e intuições.

O que desejo dizer é que, no Brasil, nós nunca chegamos à fase da casa de “pedra”, presos que estamos nas etapas pregressas. Palha, madeira, pedra, em correspondência com as freudianas fases Oral, Anal e Fálica, me fazem pensar que o brasileiro talvez viva nas intermediárias segundas etapas das tríades principais deste texto, Madeira-Anal, o que resulta em uma estátua precária que realiza um único movimento, retentivo, com prazer, como as crianças fazem durante um tempo.

Às vezes fico considerando que, politicamente, a esperança nunca venceu de fato o medo no Brasil. E não teria vencido porque talvez o indivíduo brasileiro, precioso como todos por sua singularidade no universo, não conseguiu ainda conceber que transferir a responsabilidade pela completude do seu desenvolvimento à figura espectral do Estado (Freudianamente correspondente do “Pai Biológico”) é um evidente indicador de que ele não chegou ainda à idade mental adulta.

Quando penso no Novo, e procurando me desprender de preconceitos e suspeitas, me ocorre pensar que talvez a proposta liberal deles seja a casa segura que adiamos a construção, porque isso exigiria assumir riscos, inclusive a devora pelo lobo durante a obra, lobo que seria primo daquele outro famoso, de Wall Street. Não sei, viu!

Divagando, às vezes me passa que, por medo das responsabilidades emancipatórias, nós preferimos habitar uma exótica zona de dependência. Ainda que esta pareça ao menos nos poupar de uma devora completa, ao mesmo tempo, por ser zona inclusive, limita absurdamente as nossas possibilidades individuais de empreender e realizar riquezas.

Nesse ambiente límbico, nós viveríamos como se tivéssemos perdido a fé mais valiosa, de acreditar em nós mesmos. É o que o tal do Partido Novo vem insistindo em dizer pra gente, com ressonância acrescente, neste famigerado Ano da Desgraça de 2018, em que o liberalismo ainda é visto como um elemento a ser analisado.

Tratamento pesado, no divã.

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Author: Rubens Spanier Amador

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