Exames de pré-câncer: prefeitura mostra interesse no caso para fugir de posição defensiva

Site da prefeitura pelotense informa que o juiz da 6ª Vara Cível de Pelotas, Luís Antônio Saud Teles, nomeou na segunda (24) o Hospital Clínicas de Porto Alegre para fazer prova pericial de um lote de 2100 lâminas e laudos correspondentes dos exames de pré-câncer de colo de útero apreendidos no Laboratório SEG.

O laboratório  deixou de fazer os exames depois que o jornal Diário da Manhã publicou denúncia de que eles apresentavam falhas, e que a prefeitura, embora alertada para essas falhas no governo Eduardo Leite e no primeiro ano da gestão Paula, nada fez para investigar os alertas de insegurança nos exames.

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A postagem da prefeitura enfatiza:

Desde que o caso do exames veio à tona, a prefeita Paula Mascarenhas buscou ter acesso às lâminas para que elas fossem encaminhadas para um laboratório isento. Sempre buscamos a verdade.  O hospital tem qualidade técnica e credibilidade para fazer este trabalho e nos trazer a informação correta. Dizendo se houve erro acima do aceitável, se houve exame por amostragem ou não”, afirma a prefeita.

DA REDAÇÃO – O trecho “desde que o caso dos exames veio à tona” se refere à denúncia feita pelo Diário da Manhã. Obviamente, após a denúncia do jornal – pela sua gravidade – se a prefeitura nada fizesse e ficasse de braços cruzados, estaria assinando uma confissão de culpa.

A prefeitura só poderia reagir como reagiu, dando uma resposta que demonstrasse interesse público na questão.

O que a prefeitura não explicou até agora, de modo convincente, foi porque, embora alertada mais de uma vez da insegurança nos exames, na gestão Leite e no primeiro ano do governo Paula, nada fez para investigar a denúncia, apesar de sua gravidade.

O máximo, em termos de explicação, veio pela boca de Eduardo Leite, candidato ao Piratini. Ele utilizou um programa eleitoral para dizer que a denúncia recebida em sua gestão foi “anônima”, dando a entender que por esse motivo não a investigou. Há controvérsias. Além disso, a alegação pode se voltar contra ele próprio.

Em depoimentos à CPI da Câmara de Vereadores, médicos e enfermeiros do Município disseram o contrário de Leite. Contaram que as denúncias enviadas ao governo Leite “não foram anônimas”, e, além disso, que foram feitas por escrito, por documentos, apresentados à CPI.

Mesmo considerando como verdadeira a versão de EL de que “foi anônima a denúncia”, permanece de pé uma indagação central: É aceitável um governante deixar de apurar uma denúncia daquela gravidade, mesmo que tenha sido anônima?

Pode a resposta de EL ter sido na prática um tiro no pé.

Ao descruzar os braços e solicitar judicialmente uma contraprova para as 2100 lâminas e laudos correspondentes pelo Hospital das Clínicas, a prefeitura busca, na prática, uma “segunda opinião” sobre os exames.

Por que uma segunda prova? Porque, por ordem da justiça, 17 mil lâminas e laudos, um lote muito mais representativo, foram apreendidos a pedido do Ministério Público, para análise pelo Instituto Geral de Perícias, órgão do governo do Estado.

A coisa então ficou assim: Os exames serão analisados por dois entes diferentes: IGP (17 mil lâminas – a pedido do MP) e Hospital das Clínicas (2.100 lâminas, a pedido da prefeitura).

Repetindo: ao pedir a avaliação dos exames pelo Hospital das Clínicas, a prefeitura tenta mostrar interesse “pessoal” na apuração, ainda que tardio, já que deixou de investigar as denúncias originais feitas por médicos e enfermeiros. Foi a única saída possível para um governo que se viu acuado após o estouro no caso da imprensa.

Suposições

Supondo que o Hospital das Clínicas não encontre problemas no lote de 2100 exames, a dúvida sobre a segurança dos exames continuará, porque o lote é muito pequeno comparado ao lote de 17 mil lâminas que o Instituto geral de Perícias (IGP) analisará.

A análise de lote menor, pelo HC, conterá as mesmas falhas verificadas, por exemplo, em pesquisas eleitorais, com as correspondentes margens de erro que costumam ter essas pesquisas, e que costumam também errar feio em sucessivos pleitos. Já a análise do lote maior, pelo IGP, reduzirá em muito a margem de erro dos resultados.

Entre as duas análises, a mais segura será sempre a feita pelo IGP, com a qual não se satisfez a prefeitura.

Não se satisfez por isso: porque queria demonstrar “interesse pessoal” na questão, em vez de ficar na incômoda posição defensiva de assistir, passiva, a feitura dos exames de contraprova pelo IGP, determinados pela Justiça.

Author: Rubens Spanier Amador

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