Entortando a língua para dominar a gente

Por Renato Sant’Ana
A maneira mais fácil e mais cretina de combater as desigualdades é nivelar por baixo. A quem interessa fazê-lo?
Era um destes programas de rádio com informações e comentários, em que desfilam os assuntos mais graves e as amenidades mais hilárias. E o condutor do programa fez digressões quanto à utilização de “ponto” ou “vírgula” na designação da frequência da emissora de FM. Com acerto, falou “é cento e um vírgula três”, enfatizando ser errado pronunciar “ponto” no lugar da “vírgula”.
Coisa desimportante. Mas, sem demora, um ouvinte enviou uma mensagem nada cortês para dizer que aquele comentário era uma grande bobagem e só servia para “elitizar a língua”. Ora, elitizar!
O veterano radialista (Rogério Mendelski) estava informando, esclarecendo e, sem que se superdimensione o feito, dando uma pequena contribuição cultural, sendo a exatidão, sim, uma qualidade muito apreciável da linguagem.
Não sei que idade ele tem. Sei que é de uma geração de jornalistas que ainda sabe usar o modo subjuntivo… Reflexo de uma época em que a escola servia para alfabetizar as crianças…
Já do ignoto ouvinte (se o adjetivo não for elitista) nada se sabe, senão que é reflexo da nem sempre explícita perversidade com que estão sendo conduzidas a educação e a cultura no Brasil.
Sim, para que não haja elites intelectuais, como se isso fosse por si só ruim, desdenha-se do que quer que se apresente como norma culta, ridiculariza-se a erudição e se exalta a vulgaridade. Daí, em lugar de ensinar a norma gramatical, decreta-se que a linguagem dos carroceiros tem o mesmo status do padrão culto. Mas em que sairá favorecido o carroceiro com isso? Enquanto a juventude fica estupidificada.
Para quem acha que faço pura teoria espontânea, aqui vai a base empírica. Um fato apenas, tão execrável quanto apto a retratar o que está vigorando no país. Em 2011, o Ministério da Educação comprou 485 mil exemplares de um livro, pretensamente didático, da autoria de Heloísa Ramos, elaborado deliberada e solertemente com erros gramaticais. Óbvio, material destinado a alunos de escolas públicas.
Há muitos autores sérios e proficientes que poderiam contribuir. Mas o Programa Nacional do Livro Didático, obedecendo uma linha ideológica, decidiu subverter a norma gramatical. A justificativa da autora para a sua “obra-prima” e, por conseguinte, diretriz do então ministério da educação, foi “privilegiar a linguagem oral sobre a escrita” e, ainda, substituir a noção de “certo ou errado” pela de “adequado ou inadequado”. Estão querendo educar ou ensinar a viver sem regras? Ouso afirmar que o “ignoto ouvinte” – talvez sem entender do assunto e até por isso mesmo – aceitará a orientação ideológica de tal degenerescência.
Se alguém não lembra, à época o ministro da educação era Fernando Haddad. Ele mesmo! Que agora quer completar a obra de emburrecer a população e se candidata a presidente. A meta é sequestrar o potencial cognitivo de nossas crianças.
Ninguém suponha que esses caras improvisam. Não. Tem planejamento nisso. Instituir a degeneração da língua nacional é um eficaz meio de reduzir a capacidade de pensar de crianças e adolescentes. Nivela por baixo e subtrai, a muitos alunos com talento acima da média ou simplesmente com grande motivação para estudar português, o direito a obter um domínio superior da língua, o que é imprescindível em determinados ofícios – além de fixar um modo peculiar de “estar no mundo”.
Ah, mas isso é elitismo… Triste é saber, com clareza, aonde pretende chegar essa “elite burocrática” – essa sim, abominável!
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Author: Da Redação

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