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Desenvolvimento com características de sustentabilidade

CAPITAL NATURAL +

Marcelo Dutra da Silva | dutradasilva@terra.com.br

A noção de desenvolvimento sustentável vem sendo utilizada como promotora de um novo projeto para a sociedade, capaz de garantir no presente e no futuro, a disponibilidade dos recursos e a manutenção dos serviços prestados pela natureza. Tem como uma de suas premissas o reconhecimento da falta de lastro ambiental nos padrões de uso e consumo estabelecidos pelas sociedades em crescimento, que caminham às cegas, em direção ao colapso.

A pluralidade de sentidos entre sustentabilidade e desenvolvimento torna-os semanticamente ambíguos, enfraquecendo a possibilidade de uma definição exclusiva. Isso por que o propósito de um ou do outro pode estar focado no atendimento de interesses, por vezes orientados por circunstâncias diferenciadas, no que diz respeito à maneira de como os aspectos econômicos, sociais e ambientais são considerados, se isoladamente ou de forma integrada. E a despeito de seus inúmeros significados o desenvolvimento sustentável pode ser visto como um novo paradigma cultural e científico, pois anseia pela construção de novos valores, percepções, conceitos e pensamentos, que determinarão como a sociedade irá enxergar a realidade vivida e como a ciência irá se organizar.

Portanto, o desenvolvimento sustentável jamais será alcançado a menos que se faça uma verdadeira revolução social, baseada na associação inseparável da ecologia e economia, que na prática trilham por caminhos divergentes, numa percepção distorcida e equivocada da realidade, de que o crescimento econômico é ilimitado e não dependente da disponibilidade dos recursos, os quais são vistos como inesgotáveis. Um ledo engano. Afinal, a Terra é uma só, os recursos são realmente finitos e, portanto, a forma de relacionamento que imprimimos sobre a natureza precisa ser redirecionada a um novo paradigma de desenvolvimento, em que pese a valoração dos bens e serviços prestados pela natureza. Mais do que isso, precisamos reconhecer que os mecanismos econômicos vigentes, que operam nesse relacionamento, são absolutamente perversos, distorcidos e insustentáveis.

De outra parte, as atenções para um futuro mais próspero precisam estar voltadas para o potencial de desenvolvimento econômico que cada região oferece. E já que estamos numa região privilegiada, que tem tudo para dar certo, precisamos focar no potencial dos recursos que nos rodeiam. Estamos ao lado da maior laguna costeira da América do Sul, com aproximadamente, 260 quilômetros de comprimento, que por conexão hídrica e sobre trilhos, nos liga ao centro industrial brasileiro, no litoral de São Paulo, em Santos, e ao porto de Montevidéu, no Uruguai.

Portanto, uma região estratégica do ponto de vista logístico, que possui um porto marítimo que se conecta a mais de 90 países. Um complexo de transação de cargas que recentemente se qualificou na construção de plataformas de petróleo e produção de energia, que mesmo diante das dificuldades econômicas, vive a expectativa de novas oportunidades de mercado, seja pelo restabelecimento do Polo Naval e emprego da mão de obra qualificada, seja pela mobilização em torno da Termelétrica de Rio Grande, com 1.250 MW de capacidade instalada de geração e consumo diário de 5,5 MM m³ de gás. O projeto teve a licença revogada pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) em outubro do ano passado, que alegou dificuldades dos empreendedores em cumprir o cronograma de construção da unidade. O processo de abastecimento se dará por regaseificação do Gás Natural Liquefeito (GNL), uma novidade no Estado e o excedente de gás será disponibilizado no mercado gaúcho e deve ser aproveitado para atrair um novo conjunto de indústrias, fortalecendo a economia da região.

E geração de energia parece ser o nosso grande motor de desenvolvimento. E o campo de oportunidades nessa área são bem mais amplos do que parece. Por aqui, o vento é constante, entre os melhores do mundo para produzir energia limpa. O nosso potencial de geração eólica é superior a 500 W/m² (fluxo médio de 7,5 m/s, a 50 m de altura). Apenas 13% da superfície terrestre apresenta vento na velocidade média igual ou superior a esta marca, segundo a Organização Mundial de Meteorologia (WMO). Infelizmente os projetos de geração pelo vento ainda são tímidos, sofrem entraves e apresentam problemas de alocação, com alguns empreendimentos edificados próximos às dunas ou sobre áreas úmidas importantes, um cenário de pressões que ameaçam os remanescentes naturais da paisagem costeira.

Outro grande potencial nosso é a geração de energia solar, que mesmo menor que de outras regiões brasileiras, supera em 30% o potencial solar da Alemanha, país líder neste segmento. E apesar das inúmeras oportunidades de negócio que existem nessa área, o aproveitamento desta fonte ainda é pequeno. O legal da energia de origem eólica ou solar é que diminuem a demanda por combustível fóssil, as emissões de carbono, e pode atingir o mais alto grau de sustentabilidade. A energia proveniente do sol é limpa, inesgotável e a mais democrática das fontes. Ela está disponível para todos e o processo de geração nem sempre depende que sejam empreendidas grandes usinas ou parques de geração, semelhantes ao que foi edificado no sul da Bahia, o maior parque solar brasileiro.

Por aqui, podemos fazer diferente e aproveitar a energia do sol a partir de um novo modelo de geração compartilhado, aproveitando os telhados e coberturas das casas e edifícios da cidade. Diferente de um parque solar tradicional, que depende da locação de terrenos, o modelo compartilhado precisa, apenas, de telhados para distribuir os painéis. A geração solar compartilhada apresenta uma série de vantagens. Elas não ocupam novas parcelas de solo, que podem continuar sendo aproveitado ou mantido na forma natural; não dependem de linhas de transmissão, pois as residências já estão conectadas na rede, reduzindo os custos do empreendimento; e não carecem de licenciamento ambiental, pois a planta de geração se sobrepõe, exatamente, ao espaço urbano edificado. Possibilidades que podem nos levar a definir uma nova estratégia de crescimento econômico, desde que estejamos atentos e preparados para fazer o melhor uso possível das oportunidades, sem perder de vista a noção de desenvolvimento com características de sustentabilidade.

√ Marcelo Dutra da Silva é Ecólogo e Professor de Ecologia na Universidade Federal do Rio Grande.

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