Um livro para ler depois das festas

Fins de ano são dias em que nos tornamos um pouco monges, como que reencontramos as percepções do Oriente. Embora o consumo material permaneça, prevalecem os sentimentos de confraternização e esperança. Não é uma boa hora para histórias pesadas. Por sorte, terminei ontem de ler O Coração das Trevas, considerado a obra prima de Joseph Konrad.

O romance é um mergulho perturbador nos instintos selvagens que nos habitam e que tratamos de domesticar através das convenções sociais. Não vou contar toda a história, para evitar spoiler. Vou dar uma pincelada, até porque muitos já podem conhecê-la.

O marinheiro Marlow é incumbido de resgatar Kurtz, funcionário de uma das companhias do Rei Leopoldo II, da Bélgica, num ponto distante da floresta do Congo Belga, então colônia pessoal do Rei, de onde os seus empregados extraem borracha, marfim e resina de Copal, explorando com crueldade os nativos.

Kurtz era insuperável no envio das riquezas extraídas da floresta. Sua capacidade de trabalho o distinguia. Contudo, em algum momento ele se converte num selvagem tirânico, visto e temido como a um semideus por uma comunidade de congoleses.

Com economia de palavras, o livro trata, no fundo, do mistério da dramática conversão sofrida por um homem civilizado no qual a cobiça desmedida desperta o que Freud chamava de “instinto de morte”.

O romance foi base para o filme Apocalypse Now, de Coppola. No filme (vídeo abaixo), o cenário deixa de ser o Congo e passa a ser o Vietnã. Soldados americanos são escalados para eliminar um coronel rebelde (Kurtz tb) no meio da selva, onde enlouquece e, como ocorreu ao Kurtz do romance, se torna uma espécie de semideus para os nativos.

Por se terem tornado “incômodos”, ambos os Kurtz precisam ser retirados de cena.

Livro e filme valem o esforço dos nossos olhos, de preferência depois da festas.

Author: Rubens Spanier Amador

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