Passeando por cemitérios. Por Eduardo Affonso

Eduardo Affonso *

Minha mãe herdou de minha avó o hábito de visitar cemitérios.

Onde quer que fosse, deixava ruas, lojas e igrejas para trás, se metia entre os túmulos, procurava a campa mais erma e rezava pelas almas das quais ninguém se lembrava mais.

Cheguei a acompanhá-la algumas vezes, sob o sol do meio-dia – à hora sexta, aquela em que Cristo foi crucificado, aquela em que o caminho das orações rumo aos céus é menos íngreme.

Uma vez, ela e minha avó faziam baldeação numa cidadezinha qualquer e, como a condução demorava, resolveu procurar o cemitério. Minha avó, cansada, não quis ir.

Olhou os morros em volta (cemitérios florescem melhor em lugares de onde os mortos possam avistar os vivos), pegou uma estradinha de chão e subiu, a pé, sozinha.

Numa bifurcação, tomou o caminho da esquerda, que não a levou a cemitério algum. Tinha duas horas a cumprir: a do ônibus, a das almas, e corria o risco de perder uma e outra.

Fez meia volta e retornou.

Na bifurcação, encontrou um velho, sentado à sombra de uma árvore pela qual passara minutos antes, e onde não havia ninguém.

O velho lhe perguntou se procurava alguma coisa. O cemitério, ela disse. É para cá, e apontou à direita.

Ela agradeceu, sabendo que a informação seria inútil – as almas podiam esperar; o ônibus, não. Reparou, então, que o homem não estava descalço nem de sapatos. Calçava meias brancas. Limpas. Meias novas. E entendeu que as almas é que não podiam esperar.

Pegou o caminho da direita, achou o cemitério e, na sepultura mais esquecida, rezou, num galope, pelas almas todas – e por uma, em especial.

Desceu correndo (minha avó talvez já agitasse lá embaixo o guarda-sol, impaciente). Na bifurcação, a árvore fazia sombra para ninguém.

Anos depois, minha mãe me pediu que não a enterrássemos longe de casa, numa daquelas cidades a que meu pai nos arrastaria em sua carreira como juiz. Queria receber visitas ao meio-dia, queria não ter que ir para uma encruzilhada, apontar a estranhos o endereço de uma campa sem flores.

(Cada foto que faço num cemitério talvez não deixe de ser também uma prece).

* Eduardo Affonso é colunista de O Globo. Pedimos e ele autorizou que republicássemos textos dele postados em seu endereço de facebook. Também a foto é de sua autoria

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