‘Escola Sem Partido’ pode voltar, mas não parece ser a solução

comissão especial que analisa a proposta conhecida como Escola sem Partido (PL 7180/14 e outros) encerrou seus trabalhos sem votar o relatório do deputado Flavinho (PSC-SP).

Regimentalmente, a matéria foi arquivada. Caberá aos deputados que tomam posse em 1º de fevereiro de 2019, se for o caso, retomar o assunto e discuti-lo em um novo colegiado, com novos presidente e relator. Não acho que valha a pena.

Não tenho simpatia pela doutrinação em escolas. Professor não é britadeira pra perfurar a cabeça de ninguém e fincar bandeira. Existe para iluminar os caminhos e incentivar o aluno a formar suas próprias convicções.

Minha ideia de professor é a que o cinema me mostrou em filmes como Sociedade dos Poetas Mortos (foto).  Robin Williams “doutrinava” para a autonomia do indivíduo.

Mas é lamentável um País cogitar recorrer à letra fria da Lei para o projeto “Escola Sem Partido”. Não por acaso “letra fria” virou expressão. A palavra escrita é insuficiente para conter a natureza dos bípedes de sangue quente.

É verdade, sobretudo nas universidades públicas, que o pensamento dominante é de “esquerda”, seja lá o que isso queira dizer hoje. É verdade também que professores fazem uso de britadeiras nos pupilos.

Apesar das nobres intenções, creio que esses professores deveriam recuar de seu impulso ideológico, em respeito à natural vulnerabilidade dos jovens. Em respeito à liberdade de escolha e de formação do pensamento.

Não tenho ilusões, contudo, de que o farão movidos pela letra fria. Se conheço a turma, uma lei do tipo vai sofisticar seus métodos persuasivos.

A insistência é um prevalecimento, porque os jovens são propensos a se inebriar pelos ideais de justiça social. Os ideais ajudam a garotada a afirmar suas personalidades. Isso é bom por um lado, mas por outro os transforma em “vítimas ideais” dos doutores mais radicais, sempre com olhos atentos às mais tenras jugulares, que podem ser úteis até mesmo como massa de manobra nas lutas dentro das universidades.

Entretanto, mesmo o nobre trabalho de “salvação das almas” exige um código de posturas que eleve as relações. Para que a conversão do alunado, se ocorrer, se realize com todas as cartas abertas sobre a mesa.

Apesar das nossas recentes ilusões, o Brasil não estava crescendo de modo sustentável pelo populismo econômico dos governos do PT. Pior. Afundaram o País numa crise sem precedentes, que parece nos ter finalmente confrontado com os reais desafios, que incluem o aprofundamento da modernização do Estado, iniciada com FHC e freada pelo PT, além das demais reformas.

Como dizem os empresários, toda crise é uma oportunidade. A que vivemos reavivou o pensamento liberal. Além de reabilitar as ideias de capitalismo competitivo, não subsidiado pelo Estado, o atual quadro está injetando nas universidades lufadas de ar fresco.

Por si só os fatos constrangem os docentes aprisionados em vermelhas convicções.

Também os jovens alunos começam a perceber que “o buraco é + embaixo”. Como se Cazuza lhes chegasse aos ouvidos: “Tua piscina está cheia de ratos. Tuas ideias não correspondem aos fatos”.

Cada dia mais os professores “radicais” vão enfrentar oposição crítica do próprio alunado, depositário de um volume crescente de informações, acessível pelas novas tecnologias e pelas redes sociais.

O desejável era que, pela natureza científica de seu ofício, os próprios acadêmicos tivessem olhos críticos. Que questionassem suas convicções, em nome de um ideal acima dos partidos. Acima porque os partidos são sempre redutores em algum nível, desafiados pela realidade.

Acredito que com a pororoca ideológica que estamos vendo, a universidade e as demais escolas públicas vão se abrir à maior pluralidade do pensamento. Sem necessidade da letra fria da Lei, que, e si, é o mesmo que nada.

Digo nada porque, num ambiente de coação legal do pensamento, mesmo que professores tivessem suas línguas vigiadas pelas câmeras do Grande Irmão, do livro de Orwell, estou certo de que dariam um jeito de comunicar seus filtros ideológicos, fazendo uso do gestual, do olhar, da indumentária. Até do silêncio, que às vezes grita!

Por mais que evitem, professores sempre denunciarão inclinações ideológicas. E inevitável. Comprovável até em forma de charme, com intenções sedutoras. Ou como recurso do ego carente de atenção, nem que seja a admiração de inocentes.

Eu costumava achar que jornalistas se consideravam Deus. Até conhecer os professores universitários. Em todo professor, creio, há uma espécie de vaidade em busca de reconhecimento, amor. Todas aquelas horas-aula dedicadas a orientar para a vida não podem mesmo ser em vão.

Nessa altura, é óbvio que estamos todos perdidos, como o País. Numa fase, parece, de transição do pensamento e do comportamento.

Uma vez visitei uma escola do estado, no bairro Simões Lopes. Encontrei professores com salários atrasados e crianças que denunciam subnutrição, rostos que me lembraram órfãos dos livros de Dickens. Sementes in natura de revolta.

Todos ali sabem que não devem esperar muito do Estado. Falta agora ao País provar que a situação deles pode um dia melhorar.

Eis, em termos políticos e econômicos, o grande desafio que se apresenta diante de nós, muito maior que a cartilha ideológica de um professor.

Estamos tão cindidos por dentro em nossas indignações, que nem sabemos mais como pensar ou agir. É hora de voltar ao começo. E recomeçar.

Author: Rubens Spanier Amador

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