Revolta no reino animal

Quando eu me detenho nos olhos do mico que uma amiga contrabandeou da Amazônia, vejo coisas. O que vejo? Por baixo do abandono das pupilas, sob a aparência de resignação, eu vejo a resolução dos oprimidos.

As jabuticabas, dançando nos globinhos paranoicos, fazem-me pensar em certas notícias que venho colecionando dos quatro cantos deste mundo acalorado, à beira da extinção.

Entre meus guardados: Em alguma praia do globo, uma arraia ferrou a vida de um mergulhador; na Índia, um elefante esmagou o homem que o amestrava; na Austrália, um crocodilo engoliu um caçador; no Quênia, um leão realmente se fartou, trucidando no turista japonês sua nikonica pretensão de posteridade.

Os ataques se sucedem no Brasil, onde tubarões vêm pra rebentação amputar o equilíbrio de surfistas, e pit bulls das cinco regiões não deixam por menos. Por aí vai.

Nosso maior pesadelo são os símios. Além de cleptomaníacos, prontos que estão a subtrair-nos a pipoca e o patrimônio, foram eles que disseminaram o vírus HIV. Não desconfia das colônias de urubus perto de aeroportos? Aconselho. Pra bicho-piranha, somos boi.

Mesmo assim, não odeio os animais…

Na verdade, quando me coloco no lugar deles, meu sentimento é o da solidariedade. Imagino-me num picadeiro – diante de um arco de espadas, chicoteado por um tigre-de-bengala ¬– e posso compreender o rancor que deve nutrir por nós até o mais cândido coelhinho.

Desde criança, não tenho afinidade com bichos. Sinto que não fomos feitos um para o outro. Mas sou diplomático. Se não os afago, não os maltrato, o que talvez explique terem-me poupado até este dia de seus afetos.

Ajo com eles como ajo com as pessoas: com respeitosa equidistância, ciente dos riscos da convivência em excesso em relação ao asco. Acontece que os humanos excedem a intimidade entre os de sua espécie, violando também o habitat animal.

Além das intrusões em um mundo que não é seu, homens e mulheres submetem os bichos a toda forma de imposições, brutalidades e humilhações. É o que vemos em circos, zoológicos, tornos e rédeas, laboratórios de pesquisa, passarelas de moda.

Não contentes em explorá-los com finalidades comerciais ou científicas, o que dá na mesma, nós os confinamos ao cativeiro do afeto no ambiente doméstico, chegando a submetê-los ao universo pornô.

Tive um colega cuja iniciação sexual no galinheiro tomou vulto nos estábulos e alcançou as ovelhas, em campo aberto. Revista erótica para ele eram fascículos rurais. Por aí se pode medir o tamanho da encrenca, contra a qual mesmo animais ditos ‘caseiros’ se podem insurgir, com a investidura de um tubarão branco.

Experimente topar com um cão – numa rua deserta – babando. Se a raiva do pobre animal não o torna apto a suportar dentro de si toda a desumanidade de um humano, como é capaz a jiboia, pode punir-nos com a morte ou, piedoso, cicatriz. Já os gatos desenvolveram afiados recursos para nos ensinar outra língua, o Braille, antes de saltarem o muro do desconhecido, sem olhar para trás.

A essa revolta em curso na monarquia animal, papagaios dão os dois ‘pés’. Se não representam nenhuma ameaça direta à nossa integridade física, podem muito bem provocar embates humanos ao vazar pelo bico inconfidências verbais.

Por sorte, alguns bichos se conformam em nos oferecer lições exclusivamente morais. Por exemplo, ao se adaptarem a regiões remotas, pinguins denunciam a extensão do nosso ódio; quando reviram o pescoço, corujas revelam o quadrante da nossa traição; nos sea park, o sorriso dos golfinhos nada mais é do que puro deboche da nossa estupidez. Se os ursos nos transmitem no seu abraço a falsidade do afeto, e se preguiças lentamente se movem para que nos vejamos tediosos, tartarugas vão um pouco mais longe, provando o quanto somos efêmeros.

Mesmo insetos, que em geral cumprem missões pouco edificantes, podem superar-se. Alguns parecem guiados pela tábua rasa de Islã. Zangões sacrificam o néctar da própria existência por uma causa maior => ferrar-nos. Em mutirão, cupins corroem a precariedade do nosso lar. Piolhos teriam sido precursores da Revolução Francesa, marchando da peruca ao cérebro de Luis XV, ‘guilhotinando-o’ antes que ao carrasco o privilégio fosse dado.

Fossem de lince os olhos dos homens e não ofenderiam a alcateia ao se intitularem ‘lobos de si’. Somos algo pior. Por isso eles uivam na noite profunda. Para lembrar-nos de que, em algum lugar, a vingança nos espera.

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