Noel não nasceu no Polo Norte

Não conte para as crianças, mas Papai Noel não nasceu no Polo Norte: ele é turco.

Lício, para ser mais exato, já que a Turquia não existia naquela época (a região em que ele vivia se chamava Lícia, na Ásia Menor, ou Anatólia).

Seu nome era Niclás e ficou conhecido por ajudar os pobres e as crianças (em especial, as crianças pobres).

Foi perseguido, preso, solto, deu porrada em outro bispo numa discussão teológica. Morto e canonizado, começou a fazer milagre e acabou patrono da Grécia (mais tarde inimiga figadal da Turquia) e da Rússia (onde o que não faltava era criança pobre). E dos marinheiros, das moças solteiras e dos guardas noturnos.

Na Holanda da época da Reforma Protestante, sua história se misturou à de um mago que andava de trenó, presenteava as crianças bem-comportadas e torturava as desobedientes.

Emigrantes holandeses levaram, no século 17, a lenda do Sinterklaas (São Nicolau).para os Estados Unidos. Lá, foi transformado – sem a parte da tortura infantil – num velhinho bonachão de roupa azul, morador do Polo Norte, com a corruptela Santa Claus – e só aí se associou ao ao comércio natalino.

Como aconteceria mais tarde com o chiclete, o ralouím e o roquenrol, o produto (um tiozão da melhor idade, com sobrepeso, barba rípister de lenhador, botas de cano alto e gorro de pompom na ponta, que voa em veículo movido a tração animal) foi exportado para o resto do mundo – já com a roupa vermelha do merchã da Coca Cola.

Naturalizou-se lapão. A Lapônia fica no norte da Finlândia, onde é conhecido como Joulupukki (literalmente, o bode do solstício de inverno).

Virou Father Christmas para os britânicos, Père Noel para os franceses, Pai Natal em Portugal.

Turco-lício-neerlandês-estadunidense-polonortista-lapão.

Niclás, Sinterklaas, Santa Claus, Viejito Pascuero, Papai Noel.

Mezzo bispo cristão, mezzo caprino nórdico, mezzo velhote propaganda de refrigerante.

E, ainda assim, dá saudade do tempo em que caíamos, ano após ano, nesse “conto de Natal”.

Affonso é colunista de O Globo. Seus textos do Facebook são republicados no site com o consentimento do autor.

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Author: Eduardo Affonso

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