A velha agenda telefônica é um portal

A velha agenda telefônica é, na verdade, um portal.

Se ligar para o número que aparece na primeira página – 664-1225 – sou eu que atendo do outro lado.

Não sei o que dizer para aquele sujeito com menos da metade da minha idade, mais que o dobro dos meus sonhos.

Desligo, sem lhe dar nenhum espóiler do futuro, e antes que ele me lembre de qualquer das promessas do passado.

Tento outro número: 213-6197.

Agora é a voz da minha mãe, que diz “eu”.

Ela é a única pessoa do mundo que atende dizendo “eu”, não “alô”.

Teria tanto para dizer a ela, mas o que quero mesmo é ouvir sua voz.

Ela não insiste: pressente minha respiração e recoloca o telefone no gancho, certa de que é mais um dos trotes que a infernizam.

Ouvi-la dizer “eu”, sabendo que sabe quem é, já me basta.

Quem serão Aloísio, Amparo, Bárbara, Beatriz, cujos números aparecem nas páginas seguintes? Talvez o portal se abra para quem devesse permanecer no esquecimento, e o esquecimento merece ser inviolável.

Minha avó me aguarda no 721-3303. Meu pai, no 212-4565.

Ela permanecerá muda – não gosta de falar naquela máquina estranha, o telefone. Ele dirá “`Pronto!”, em tom marcial.

É a única pessoa que conheço que atende dizendo “Pronto!” – e não sei como aprendi a dizer “alô” tendo nascido nessa família.

Na letra A posso reencontrar Ângela, de cujos olhos não consegui desviar os meus na aula de Psicodrama, e ela terá ainda dezenove anos se eu discar 711-7213.

Arísio me apresentará Itamar Assumpção – é só ligar para 224-9425.

Ainda é tempo de trocar meu voo na Panam se ligar para 845-8000. Me informar sobre a matrícula na UERJ pelo 284-8322. Cancelar a terapia no 225-0152.

Aula, avião, divã, ao alcance de um número se eu acessar o portal e ainda souber aonde ir, o que aprender, o que calar.

Hesito diante do 547-2217.

– Tudo bom, meu amigo?

– Tudo, e você?

– Vamos vivendo.

– Eu não! – e dá uma gargalhada.

Ele morreu há mais de vinte anos, e não perdeu o bom humor.

Não soube o que é envelhecer, o que é ficar amargo. Foi o primeiro amigo a ir embora, e seu último abraço, fortíssimo, quando mal tinha forças para se erguer na cama do hospital, mostrava que a morte não sabia com quem estava se metendo.

A velha agenda telefônica volta para a gaveta, com todos os seus mortos – o seu guardião, o mais morto de todos.

Há portas que não se deve abrir, há chaves que convém perder.

Affonso é colunista de O Globo. Seus textos do Facebook são republicados no site com o consentimento do autor.

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