Uma praia do Laranjal que não existe mais

Depois de vários anos longe, voltei a morar em Pelotas. Desde então, sempre passo uma temporada de verão no Laranjal, balneário dos mais ricos tempos da minha vida.

Para mim o Laranjal de manhã é imbatível. Aquela água prateada lá pelas 10h, a presença escassa de pessoas, a placidez do cenário, tudo me remete à infância e à adolescência vividas no balneário.

Recordo de muitas coisas dessa época.

Lembro dos engradados de refrigerantes sortidos (mirinda, pepsi, teen…) que o pai trazia para abastecer a despensa. As garrafinhas saíam da geladeira num desfile constante, fazendo pensar que a vida era generosa e que a generosidade não teria fim.

Lembro dos picolés artesanais feitos em forminhas verdes de plástico que a mãe preparava e que a gente comia presos a um palito branco igualmente de plástico, cujo sabor superava qualquer produção industrial de gelados e fazia pensar que de nada mais precisávamos que o trabalho manual e a boa vontade não resolvessem.

Lembro dos hoje desaparecidos vaga-lumes. Eles reluziam na noite, dançando ao som do coachar dos sapos nas valetas. De vez em quando, meu pai pegava um vaga-lume entre as mãos e prendia-o sob um copo emborcado, para que no escuro admirássemos o acender e o apagar da luzinha natural. Depois, enquanto dormíamos, ele substituía o vaga-lume por uma cédula de dinheiro, mutação que nos espantava de manhã, transformando-nos em capitalistas obcecados em cometer novos crimes ambientais nas noites que se seguiam.

Lembro de pescarias de prateadas corvinas e de translúcidos peixes-rei que fisgávamos em varinhas precárias e boias de rolha, fritados à noite pela mãe, para que nos sentíssemos caçadores igualmente responsáveis pela subsistência da família.

Lembro de um anzol atravessado no meu pé e do meu pai me levando nas costas em meio à poeira das ruas até o posto de saúde e do rastro de sangue coagulado na terra, que ficava para trás junto com qualquer mágoa passada que eu pudesse ter do meu pai.

Lembro do vento forte que soprava da praia nas caminhadas noturnas para o Praia Sete (campeonato de futebol entre empresas e entidades) e dos torneios de vôlei no bar que ficava onde hoje é o shopping Mar de Dentro, em que encontrávamos amigos e amigas e ensaiávamos os primeiros namoros e os primeiros beijos, que tinham um sabor de amanhecer.

Lembro de longas partidas de cartas e dominós na cozinha da casa de praia, onde, abrindo-se a mesa de jantar, tínhamos um campo de futebol riscado à caneta na madeira, para os jogos de botão, e que às vezes era utilizada para suados embates de pingue-pongue em que mesmo a derrota era sentida como vitória.

Lembro de tudo isso e de tantas outras coisas que me fazem ter amor pelo Laranjal, saudades de um tempo que parece remoto, quando tudo era possível. A vida, então, ainda não havia mostrado suas malícias, contra as quais o único antídoto são as vivências boas da infância e da adolescência. São elas que mantêm acesa em mim a luz da vida, ainda que às vezes se apague, como se não fosse voltar mais.

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