Organizar a bagunça

Papo de café entre psiquiatra e psicóloga: eu falava do meu livro sobre o Brasil e ela perguntou “mas você acredita mesmo no Brasil?”. Pensei na hora e devolvi a pergunta: “o que você acha mais fácil, organizar uma bagunça ou flexibilizar uma rigidez?”. Ela ficou pensativa.

Pense nas dificuldades de se adaptar à cultura da disciplina no Japão e à extrema organização na Alemanha. “De perto ninguém é normal”, já disse o Caetano. Você nunca desconfiou por que tantas celebridades brasileiras que viveram na Europa voltaram para o Brasil? De longe é lindo ver tudo organizado, mas lá você não tem essa facilidade de fazer novas amizades, frequentar a casa das pessoas e ser acolhido por pessoas que você mal conhece, como acontece aqui.

Estamos tão cansados do “jeitinho brasileiro” (que teria surgido na época da escravidão, para driblar poderes tirânicos) que lhe negamos todos os méritos, mesmo que usufruindo de suas benesses. Qualquer jovem brasileiro que colocar uma mochila nas costas pode ir para uma praia do Nordeste, onde as pessoas lhe alugam um quarto, lhe colocam para dentro da casa delas e lhe tratam como amigo de infância.

Psiquiatras e psicólogos conhecem, da vivência profissional, a dificuldade em ajudar pessoas rígidas a flexibilizar seus conceitos, suas formas de ver e sentir a vida e de ter empatia com as outras pessoas. Pessoas de personalidade rígida estruturam famílias com regras rígidas e de difícil convivência.

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, já disse o Caetano numa música, que serve para nosso sentimento de auto-desvalia com a desorganização da sociedade brasileira, da nossa cultura avessa à autoridades e à disciplina. O momento agora é de “organizar a bagunça”, esse é o sentimento predominante na sociedade brasileira pós-2018.

O brasileiro é avesso a autoridades, mas de tempos em tempos, em nome de um “interesse maior”, coloca no poder um tirano para “organizar a bagunça”, disse o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda há 83 anos atrás, quando publicou “Raízes do Brasil”, em 1936. Esse seria o nosso “ciclo” recorrente, entre o gozo da extrema liberdade na qual gostamos de viver e momentos de desejada rigidez para estabelecer limites sociais aos excessos. Mais forte que qualquer partido político, ou que qualquer ideologia política de direita ou esquerda, estaria essa nossa tendência cultural, atávica, cíclica, de alternância entre liberdade e ordem.

O sentimento do momento é “organizar a bagunça”, ou seja, na repressão ao crime comum, contra os altos índice de assaltos. Isso gera a preocupação com a “governabilidade”, com ajuda da folclórica Damares, pra não pensarmos no Queiroz.

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