‘Plantas carnívoras, Nossa Senhora e areia movediça, meus terrores infantis’

Meus terrores infantis eram (não necessariamente nesta ordem) plantas carnívoras, Nossa Senhora e areia movediça.

O primeiro e o último advinham do hábito de ir religiosamente à matinê de domingo no Cine Brasil, em Viçosa. Ali era quase certo estar em cartaz algum filme de Maciste – um fortão descamisado que lutava contra monstros, gladiadores, leões, piratas, alienígenas e, claro, contra plantas carnívoras. E, não contente, volta e meia ficava atolado na areia movediça.

O segundo terror era fruto da religião mesmo.

Plantas carnívoras, nos filmes trash dos anos 60, não se limitavam a comer carne humana: elas comiam e babavam. O mais aterrorizante talvez nem fossem seus dentes afiados, mas os gemidos (plantas carnívoras gemiam) e a baba.

Ao contrário de suas parentas mais tímidas – as plantas vegetarianas – as carnívoras não primavam pela boa índole. Atacavam mocinhos e bandidos com igual apetite e idêntica salivação (ou seilivação, no caso). Mocinhos – como Maciste – conseguiam escapar. Os bandidos, não.

O filme que não tinha planta carnívora certamente teria areia movediça. Isso quando carnívoras e movediças não atuavam em parceria.

Mas a areia movediça era pior. Todo mundo sabe (pelo menos todo mundo nos anos 60 sabia) que quanto mais a pessoa se debate, mais rápido afunda na areia movediça. Então, as opções eram tentar escapar e morrer logo ou fingir que não era com você e morrer devagarinho.

A menos, claro, que você fosse o Maciste – ou Hércules, Sansão, Ulisses, um halterofilista qualquer de tanga e sandália, besuntado e decidido. Aí sempre aparecia um cipó amigo ao qual se agarrar. Dependendo do filme, o cipó pertencia a alguma espécie de planta carnívora – e aí nosso herói ia da areia para a gosma, sem escalas.

Nossa Senhora era outro departamento. Tinha mania de aparecer, assim do nada, para criancinhas indefesas. E eu, sem falsa modéstia, me encaixava perfeitamente nessa categoria. Era gago, tinha asma e usava franja. Decididamente, eu fazia seu tipo. Era seu público alvo. E ainda por cima morava numa casa enorme, cheia de cômodos vazios, e com o banheiro láááá no fundo do corredor. Tudo conspirava.

Nossa Senhora já aparecera, sem aviso prévio, em Lourdes e em Fátima. Quem podia garantir que não estaria à minha espreita, em Viçosa, por trás de uma daquelas portas, se equilibrando em cima de um pequeno globo terrestre, e com pedidos extravagantes para me fazer?

O Cine Brasil agora é um supermercado, ninguém há de se lembrar do Maciste e eu virei ateu. Tudo isso só voltou à memória porque acabo de ler que um homem morreu ontem, em Minas, afogado na areia movediça – o que é pior que ser enterrado vivo (esse é o quarto terror, que eu tinha esquecido).

Hoje eu talvez aproveitasse para fazer um monte de perguntas a Nossa Senhora e tentasse convencer as plantas carnívoras a virar veganas. Mas algo me diz que vou ter pesadelo esta noite – como tinha mais de 5 décadas atrás – com a areia movediça.

Eduardo Affonso é colunista de O Globo. Os textos que ele publica em seu endereço de facebook são reproduzidos pelo Amigos de Pelotas, com autorização do autor.

2 thoughts on “‘Plantas carnívoras, Nossa Senhora e areia movediça, meus terrores infantis’

  1. Bah, nunca mais ouvi falar em areia movediça, acho que foi extinta, que desastre ecológico. Era um dos meus maiores temores também.

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