Crise moral e sacrifício

Então Deus lhe ordenou: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem tu muito amas, e vai-te à terra de Moriá. Sacrifica-o ali como holocausto, sobre uma das montanhas, que Eu te direi” (Gênesis, 22;2)

No Antigo Testamento há passagens de sacrifícios heroico-trágicos, como o do sacrifício de um próprio filho, em nome de Deus. O que hoje seria bárbaro em termos literais, tem alto significado simbólico para a administração pública.

Num Brasil mergulhado em crise moral e financeira, o exemplo tem de vir de cima, sem o que pedir sacrifícios ao povo parecerá mera hipocrisia. A reforma da previdência é uma forma de ônus que recai sobre os brasileiros, a trabalhista também, a contenção de despesas, com consequente redução de gastos com programas sociais, são todas decorrências da crise financeira, que implicam em sacrifícios da população.

Ônus financeiros assumidos em prol de uma causa maior se tornam compreensíveis, se justificam, enquanto mudanças necessárias para o futuro da sociedade. O mesmo vale para o ônus moral, para as atitudes moralizadoras que a sociedade demanda do governo, para a crise moral do país, que acompanha a financeira.

A sociedade quer a prometida transparência do BNDES, cujas atividades envolvem valores bilionários, estratégicos para o desenvolvimento econômico. Mas também quer a do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), na identificação de indícios de atividades ilícitas.
Toda eleição presidencial girou em torno da crise moral e financeira do país e no exemplo que o governo eleito teria de dar, onde todos os candidatos prometeram ser exemplares em seus atos.

Eleito o atual Presidente, escolhido o seu Ministério, cabe à sociedade esperar o cumprimento dessa missão da qual se incumbiram. Pois duas iniciativas vão na contramão das expectativas. A primeira foi o artigo 7º do Decreto 9.663, de 1º de janeiro de 2019, que veda aos membros do COAF “manifestar, em qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento no Plenário”. A segunda foi a iniciativa do senador Flávio Bolsonaro, filho do Presidente, de reivindicar para si, junto ao STF, o foro privilegiado no tocante às investigações sobre o seu ex-assessor Queiroz.

O Brasil já passou anos discutindo as benesses atribuídas ao “Lulinha” como favorecido pelo governo do seu pai, para seguir agora no mesmo tema dos privilégios familiares, em detrimento da moralização do país. Quem torce para o sucesso do governo quer que o beneficiado seja o país, a população, não a família presidencial.

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