Grande Hotel: um patrimônio da comunidade pelotense. Por Pedro Hallal

Ontem, dia 21 de janeiro, o advogado Gustavo Jaccottet publicou coluna opinativa na imprensa sobre a situação atual e o futuro do Grande Hotel de Pelotas, inaugurado em 1928. O principal argumento levantado é de que “um hotel deveria estar integrado à iniciativa privada e não a uma instituição pública, sustentada pelo contribuinte”.

Aliás, o texto começa com a afirmação de que “a estrutura do Grande Hotel está depredada, necessitando de reparos urgentes”.

O Grande Hotel foi, inicialmente, um investimento privado que teve a participação de 21 investidores. O projeto arquitetônico foi escolhido por meio de um concurso público lançado no ano de 1923.

Em 1925, aprovou-se a seleção do projeto e se iniciaram as obras de construção. Na época, enquanto uma crise econômica se acirrava, os investidores solicitaram empréstimo ao Banco Pelotense e ao Banco da Província. No ano de sua inauguração, o Grande Hotel foi comprado pelo município, que passou a arrendá-lo a partir de então.

Quando a UFPel o adquiriu, por doação do município, a missão já estava selada: fazer do Grande Hotel um local para formar recursos humanos especializados para o setor hoteleiro regional.

Cumpre ao Grande Hotel ser o passo contemporâneo de um empreendimento da 1920: uma escola capaz de aprimorar o setor hoteleiro e tudo o que dele e nele está implicado através do conhecimento técnico e científico. Trata-se de uma missão educacional e de um investimento na população local e na produtividade da região mediante o reforço da identidade local.

Para atingir essa missão, tanto a prefeitura de Pelotas quanto a UFPel sabiam que o prédio precisa passar por uma revitalização, a qual foi cuidadosamente planejada. O projeto foi enviado ao edital PAC Cidades Históricas, sendo aprovado na sequência.

Aliás, o Grande Hotel e o Sete de Abril, dois patrimônios da comunidade pelotense, foram aprovados no mesmo edital. De lá para cá, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) solicitou detalhamentos do projeto e do orçamento, sendo que a UFPel cumpriu com todas as solicitações.

No final de 2018, o Diretor do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização do IPHAN veio a Pelotas e anunciou que a liberação dos recursos para a revitalização do Grande Hotel estava próxima. Assim que chegarem os recursos, a UFPel disparará o processo licitatório que contratará, num prazo de três meses, a empresa responsável pela obra.

A prioridade atual para o Grande Hotel é a mobilização popular para a liberação dos recursos (na ordem de R$ 9 milhões), por parte do IPHAN, para a revitalização do prédio. Ainda no texto publicado ontem, o autor questiona “como ficaria o processo de manutenção?

De onde viria o lucro para ser reinvestido na preservação da edificação”? Respondo que o processo de manutenção será de responsabilidade da UFPel, uma instituição que, aliás, se responsabiliza pela preservação de dezenas de prédios nas cidades de Pelotas e Capão do Leão.

Fica o convite ao advogado Gustavo, extensivo a toda a população pelotense, para se juntarem a nós na mobilização para, não somente conseguirmos liberar os recursos já aprovados para a revitalização do Grande Hotel, mas também para mantermos uma Universidade Pública, 100% Gratuita, de Qualidade e Socialmente Referenciada em nossa cidade, trazendo desenvolvimento para a região e transformando a vida de milhares de famílias por meio da educação.

Pedro Curi Hallal é Reitor da UFPel

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Abaixo, o texto do advogado Gustavo Jaccottet que deu origem ao texto do reitor Pedro Hallal.

Grande Hotel: um pedaço de Pelotas que está apequenado

Por Gustavo Jaccottet

O Grande Hotel de Pelotas é um dos belos casarios que estão no entorno da Praça Coronel Pedro Osório. Ao mesmo tempo quem é esplêndido há de se asseverar que a sua estrutura está depredada, necessitando de reparos urgentes.

Diante da insurgência de diversos alunos nas redes sociais, o Reitor, Pedro Hallal, ventilou, a partir de seu perfil pessoal no Facebook que já há um planejamento em andamento, cito: “Colegas, a UFPel preparou projeto para o IPHAN para reforma completa do Grande Hotel. O projeto foi aprovado e os trâmites burocráticos da liberação do recurso estão em andamento.”

Repare o leitor que os termos trâmites burocráticos sempre estão presentes em todos os atos do Poder Público, o que me causa um desconforto latente, haja vista que um Hotel deveria estar integrado à iniciativa privada e não a uma Instituição Pública, sustentada pelo contribuinte.

A fim de coletar dados suficientes para tecer argumentos razoáveis, fui informado por uma docente do Curso de Hotelaria que havia um projeto de transformar o Grande Hotel numa grande escola de Hotelaria, acolhendo não apenas o curso, senão um restaurante e uma cafeteria, que seriam abertos ao público, ou seja, ter-se-ia uma finalidade para o uso do Grande Hotel por parte do Poder Público. Foi com esse fulcro que a Prefeitura o cedeu, de forma gratuita, à UFPel.

Os ganhos para a cidade de Pelotas seriam interessantes se existisse verbas públicas, e boa vontade, claro, para fazer do Grande Hotel um espaço, também, de aprendizagem comercial. O otel, em si, funcionaria como qualquer outro, oferecendo os mesmos serviços com mão de obra gratuita, tal qual os Hotéis Escola do SENAC, admitindo o treinamento e a preparação de profissionais para atuarem no setor.

Entendo, e afirmei isto diretamente ao Reitor via Rede Social, que a única saída palatável é o retorno do prédio à iniciativa privada, haja vista que não acredito na chegada iminente da aludida verba e o contribuinte não pode continuar a carregar em suas costas o peso de se custear obras inúteis.

Há redes de hotéis, como a francesa Accor, detentora de marcas como Ibis e Mercure, que tem, dentre seus selos, projetos que se adequariam perfeitamente à situação do Grande Hotel. Me refiro aos chamados “Mgallery by Sofitel”, que pretende o restauro e a exploração econômica de hotéis que já possuem um passado.

Os mesmos são inteiramente restaurados seguindo todos os padrões exigidos pelas normas que regem o patrimônio histórico, sem violar as regras vigentes no Livro do Tombo, e a marca é, ainda, comercializada com o nome antigo do estabelecimento.

Nunca deneguei que sou contrário ao Poder Público assumir atividades que não são parte de suas finalidades específicas – como igualmente defendo que muitas ações que hoje são parte do Estado deveriam ser repassadas à iniciativa privada, reduzindo o volume de recursos públicos despejados em obras inúteis, redirecionando-as para saúde, segurança e educação básica -, como, in casu, administrar com recursos públicos um Hotel, haja vista que não há saída.

Mesmo com os recursos do IPHAN, os quais, segundo dito pelo Magnífico Reitor, não devem tardar a sair, dependendo apenas dos “trâmites burocráticos”, para o restauro, como ficaria todo o processo de manutenção?

De onde viria o “lucro” para ser reinvestido na preservação de uma edificação que encanta a todos, sobretudo a nós que aqui vivemos, salvo se a mesma viabilizasse a operação do Hotel com a mão de obra gratuita dos alunos?

Perguntas estas batem no vazio – mesmo com os recursos do restaurante e do bar que mencionei acima, não ter-se-ia meios adequados para custear um prédio que requer cuidados periódicos, havendo a necessidade do funcionamento pleno do Grande Hotel na modalidade Hotel Escola -.

Não há outro argumento razoável para justificar o investimento público senão aquele que prediz a conversão completa do Grande Hotel aos modelos de Escolas de Aprendizagem Comercial que já existem no SESC, caso contrário, a privatização é a única saída.

Gustavo Jaccottet é advogado

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