Mais além da dor

Que país queremos ser?

O país ficou em choque com a tragédia em Brumadinho, com a dor de centenas de famílias, com a tristeza e a revolta pela repetição do fato, pela falta de providências após o mesmo episódio em Mariana, há três anos.

Pela primeira vez houve prisões, agora, dos responsáveis técnicos pela segurança da barragem rompida. O sentimento de justa revolta e indignação dos brasileiros não se satisfaz com superficialidades, exige que sejam apuradas também as notícias de verbas destinadas pela Direção da Vale a Congressistas, para facilitar a aprovação de seus projetos.

Indo mais além da dor, o que esse episódio nos mostra sobre o nosso país? Somos solidários na dor, mas onde uma cultura do planejamento, da organização, da prevenção?

Mais do que leis, uma sociedade, um país, é regido pelas normas de sua cultura, dos hábitos de comportamento das pessoas. Não nos faltam boas leis, nossa legislação de modo geral não fica atrás das nações mais evoluídas, nos faltam hábitos de zelo civilizatório, tais como o planejamento e a responsabilidade por riscos previsíveis. As Ciências Jurídicas e Sociais não se constituem só de leis e jurisprudência, mas também de “usos e costumes” – parece ser esse o “X da questão”.

Começando pela própria concepção do Brasil, fomos concebidos como uma Colônia fornecedora de matéria-prima e até hoje nossa Economia gira em torno das “commodities”, sem produtos com maior “valor agregado” – ou seja, seguimos nos mesmos moldes dos tempos coloniais.

Nosso destino seria o “Terceiro Mundo”? Para a Coreia do Sul não foi, embora há meio século (na década de 70) estivessem no mesmo patamar econômico subdesenvolvido, hoje são um país com tecnologia de ponta, do qual importamos telefones Samsung e automóveis Hyundai.

Fornecemos minérios baratos para as indústrias do Hemisfério Norte, das quais recompramos produtos industrializados, mais caros. Mais que isso: o Agronegócio e a Mineração, que poderiam ter um perfil moderno, ainda são praticados em moldes predominantemente predatórios, como se cuidados ambientais fossem um “entrave” econômico.

A Holanda é a segunda maior agroexportadora do mundo, em termos financeiros, atrás dos EUA e à frente do Brasil, com um território de 33 mil km2, graças à tecnologia para produzir mais e menos espaço, contra nossos 8,5 milhões de km2 onde devastamos florestas e usamos o solo sem cuidados em preservar sua fertilidade.

Que se responsabilizem a Vale, os incompetentes e os corruptos, mas que, indo mais além da dor, repensemos nossa identidade colonial, nossa falta de planejamento. Está na hora de nossa cultura imediatista evoluir para um projeto de país com ciência e tecnologia, onde os riscos nas fábricas de chips são menores que os da mineração.

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