No tempo em que havia cartas

Houve um tempo em que havia cartas. Já existia o telefone, ainda havia o telegrama. Mas, principalmente, havia cartas.

Vinham embrulhadas numa coisa chamada, pomposamente, “envelope”. Eram trazidas à mão, e depositadas na caixa de correio, ou deslizadas por debaixo da porta.

Cartas tinham textura, tinham cheiro. Tinham o traço de quem as escreveu, as digitais, o estilo de uma arte extinta, chamada “caligrafia”. Lia-se a carta antes mesmo de a carta ser aberta: a caligrafia nos chamava pelo nome num dos lados do envelope, e sussurrava o do autor, no seu verso.

Cartas tinham cabeçalho, onde o remetente se situava: estou aqui, o dia é este. Cartas tinham vocativo. Prezado amigo, Meu amor, Querido filho.

Havia uma pausa, um espaço, entre local, data e vocativo. Uma hesitação. Um não saber exatamente como se dirigir ao outro. Caro, prezado, querido? Estimada, amada? No vocativo já se dizia muito. Te quero, te estimo, te amo mas ainda não posso dizer isso.

Cartas eram escritas de chofre, num arranco, num impulso, ou rascunhadas, rasuradas, reescritas até que o tom fosse o justo, os arroubos estivessem contidos, os sentimentos devidamente formatados (ainda não tinha sido inventado o verbo “formatar”, e as cartas eram buriladas mentalmente, ou deixadas escorrer em folhas avulsas, até tudo – gramática, afeto, intenções – ser finalmente passado a limpo.

Cartas levavam tempo. Amadureciam. Havia lugar para o arrependimento, do momento em que se assinava (Cordialmente, Sinceramente, Um beijo, Forte abraço, Sempre sua) e se dobrava o papel, e se fechava o envelope, e se caminhava até a agência dos correios, e se pedia o selo (Carta simples, por favor; Não, registrada!) e só aí a mensagem partia na sua longa viagem (dias, semanas) levando intacto um sentimento que talvez já não existisse mais quando ela chegasse ao seu destino.

Eu guardo uma carta nunca lida. Há vinte anos ela espera pelo dia que não virá. Enquanto permanecer fechada (e permanecerá) terá em si todas as possibilidades. Enquanto não a abrir (não a abrirei) ela dirá Te amo, te amo muito, vamos esquecer tudo isso. Ela dirá Vai ser melhor assim, íamos acabar nos magoando, vamos ser amigos. Ela dirá Me perdoe, exigirá Nunca mais me ligue, pedirá Me dê um tempo, soluçará.

Estou aqui o tempo que você precisar. Ela dirá muito mais (a carta é gorda, imagino quatro, cinco páginas) e já a adivinhei, e já a inventei tantas vezes que não haveria envelope capaz de conter essa carta imaginária que repousa lacrada dentro de um envelope comum, daqueles com bordas de losangos verdes e amarelos, um selo ordinário no canto superior direito, esmagado pelo carimbo que me lembra (já esqueci) a data do fim.

Algumas vezes, nessas duas décadas, estive com essa carta nas mãos. Não para abri-la, mas para exercitar minha capacidade de conservar mágoas, reavivar feridas, me banhar de novo no leito de um rio que secou. Lá está a letra, se dirigindo a mim num endereço que já não é meu, onde não posso mais ser encontrado (esse endereço não é uma rua, é o passado). Lá está a letra, que aprendi a amar em tantas outras cartas (todas descartadas, porque abertas e lidas, porque evaporadas). Nessa não: ali a letra ainda me chama pelo meu nome completo e a voz ecoa enquanto leio. O que não saberei jamais hiberna ali dentro, um sono sem sonhos do qual aquelas palavras, forem quais forem, não vão acordar.

Quando eu morrer, alguém, antes de jogar fora todas as cartas guardadas, e os cartões postais, e mapas das cidades por onde andei, talvez perceba esse envelope ainda intacto e se pergunte se terá sido esquecimento, descaso, amargura. Talvez rasgue a borda, puxe as folhas, as desdobre e leia. Talvez, antes que isso aconteça, ou quando isso se aproxime, eu meta essa carta num envelope e a devolva. Não há de ser difícil conseguir o novo endereço – porque seguramente será um novo endereço, uma casa onde não pisei, onde não haverá o meu DNA na maçaneta, no ralo do banheiro, entranhado nos lençóis, na memória das paredes e do assoalho.

No tempo das mensagens instantâneas, impalpáveis, escritas em papel virtual, não há lugar para tais enredos. Imagino se um e-mail deletado sem ler irá vagar pelo cyberespaço como vagam pelo limbo as almas dos não batizados, dos que não chegaram a ser. Possivelmente apenas se dissolvem, como se nunca houvessem existido.

Guardo uma carta não lida. Um de cada lado do envelope, ainda estamos ali – nós que nos amávamos tanto – entre losangos verdes e amarelos, de costas um para o outro, não mais amantes, nunca mais amigos. Desde há vinte anos apenas Remetente e Destinatário.
Talvez o amor tenha durado tanto porque amei num tempo em que havia cartas.

Eduardo Affonso é colunista de O Globo. Seus textos publicados no facebook são republicados aqui com autorização do autor.

Obrigado por participar.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.