ADVÉRBIOS, CONJUNÇÕES & IMPLICÂNCIAS AFINS

Sou implicante por natureza.

Assisto a GloboNews contando aí os “aí” que os comentaristas falam aí a cada 15 segundos.

O advérbio de lugar virou aí complemento verbal.

Não pode vir um verbo aí que colocam aí um “aí” aí.

No 50º “aí” eu desisto aí de contar e mudo aí de canal.

Ou seja, assisto aí no máximo 1 ou 2 minutos.

Implico também efetivamente com os advérbios de modo.

Advérbios de modo desnecessários realmente me tiram do sério.

Principalmente porque são usados exatamente onde não é preciso.

Experimente ler as 3 sentenças acima tirando completamente os advérbios de modo e verá que eles não fazem perfeitamente falta nenhuma. Aliás, nem naquelas 3 e nem nesta.

Esta é outra implicância: a conjunção dupla “e nem”.

“Nem”, além de ser um chamamento carinhoso (que só devia ser utilizado entre quatro paredes, no escuro e dirigido a alguém que você tenha certeza que nunca mais vai ver na vida), significa “e não”. Logo, “e nem” é o mesmo que “e e não” – e ninguém diz “e e não” a não ser em caso de disfemia (antigamente conhecida como gagueira).

“E nem” só faz sentido quando o “e” for conjunção e o “nem” for advérbio. E nem adianta fazer esta cara de quem estava teclando durante a aula de português na qual se ensinou isso porque nós sabemos muito bem que não existia celular naquele tempo.

Então, tenho também implicância com essa mania de começar frase com “então”.

Há dois tipos de “então” em começo de frase. O com pausa e o sem pausa.

O sem pausa é advérbio de tempo.
“Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar” (Chico Buarque & Vinícius de Moraes).
Então = naquele momento, naquela situação.

O com pausa é advérbio de falsidade.
Começou com “Então” e fez pausa, senta que lá vem caô.
“Então… nós vamos debater a reforma da Previdência com seriedade e…”
Esquece. Não vão coisíssima nenhuma.

Enfim, tem o “enfim”, advérbio indicador de que o fim está longe.

O “enfim”, numa conversa, significa o mesmo que o “só mais um pouquinho” do dentista no tratamento de canal.
É sinal que não chegou nem na metade, e que o pior ainda está por vir.

Da mesma laia do “enfim” é o “assim”.

“Assim” é advérbio de modo. Devia significar “deste jeito, desta maneira”. Mas, no meio da frase, seguido de uma engolida de saliva, quer dizer “do jeito oposto”.

“Eu achei que seu cabelo ficou, assim, muito bom” quer dizer que a pessoa tem certeza que você foi atropelada por um cortador de grama desgovernado.

E tem o “quer dizer” – que não quer dizer absolutamente nada.
No máximo, quer dizer o contrário do que você não queria ter dito antes mas disse.

Então… (pausa)… tirando isso, não implico com mais nada.
Quer dizer…

Eduardo Affonso é colunista de O Globo. Textos seus no Facebook são republicados no Amigos com autorização do autor.

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