As coisas essenciais da vida

Escrevi este texto por razões biológicas.

O cômodo de minha avó materna, no período em que morou em um pensionato para idosos, era o retrato de uma preciosidade que se decanta no declínio.

Entre as paredes daquele modesto reduto do casarão centenário, só havia lugar para o essencial: um armário, uma cama, um criado-mudo, uma mesa, uma cadeira, uma estufa para enfrentar o rigor do inverno.

Ao abrigo de um abajur, um rosário e um livro ladeavam um mimo da juventude: uma caixinha de música porta-joias.
Ao giro dos dedos da avó, a bailarina de corda deslizava seu encanto pelas cavidades da relíquia, vazia de topázios ou esmeraldas.

Havia, ainda, o silêncio…

Como a geada, que no pátio restituía o viço a esmaecidas hortênsias, o silêncio recobria os inquilinos do velho sobrado com uma postiça dignidade perdida, como se a contrição dos sentidos lhes restituísse o valor da existência. Como se, depois de longo exílio, os moradores do lugar retornassem a si, à própria essência.

Porque os olhos da avó pendiam na espera, adentrávamos seu quarto numa suspensão de inquietude, feito ladrões. Da cadeira rente à cama, minha mãe esquadrinhava o semblante da anciã adormecida.

Em pé à janela, eu observava lá fora o balé das hortênsias ao vento, o gradeado de lanças de ferro, que era o muro; do outro lado, a calçada, onde pessoas passavam afogueadas de sábado e de sol.

Eu apenas adolescia. Mas, por trás do rosto desfigurado pela inadequação, podia intuir os pensamentos de minha mãe, embora a rua me interessasse mais.

Quando a avó enfim emergia do sono, às vezes o pânico se apropriava de seus miúdos olhos profundos, a confundir-nos com intrusos desconhecidos.

“Calma, somos nós”, socorria-a a mãe.

Enquanto a avó nos ‘procurava’ na memória, era como se fosse obrigada a percorrer todas as páginas do catálogo de rostos de sua vida.
De volta a si, caminhava até uma vasilha com água. Espargia o rosto, envolvendo-o de zelo nas mãos, depois numa toalhinha. Refeita do torpor, erguia faca da mesa, cortava do bolo fatia, abria garrafa térmica, servia-se de chá. Fechava-a depois, um giro a mais na tampa, reter bem o calor. Então, em suaves ingestões, temperadas por familiares indagações, punha-se a saciar o apetite modesto dos idosos.

Cada movimento do seu corpo frágil revestia-se de uma plenitude de intenções que se contrapunha à minha avidez por vencer o tempo, e me irritava e devolvia de volta à janela, à vida ebulindo lá fora.

Tudo se agravava quando a mãe procurava ‘animar’ a avó com palavras. Eu mesmo, uma vez, ousei me utilizar do mesmo expediente. Porém, tudo o que eu dizia à avó soou-me vazio, e eu me senti ridículo e, no meio, me calei.

Eu, que naquela época acreditava em algum mágico código semântico capaz de desatar nós da mente; eu, que acreditava poder vazar os halos da minha própria solidão, passei a temer as palavras, com medo de confirmar a inutilidade de sua função: iludir o medo.

Se já era fechado, cerrei-me.

Eu não acreditava em minhas próprias palavras. Não confiava no que os outros diziam, atento ao que não diziam por trás do que diziam.
Por exemplo, não acreditava quando falavam que a avó via gente morta. Diziam que mórbidas holografias tomavam forma diante de seus olhos, solicitando-lhe audições.

Sendo verdade que podia conversar com os mortos, como se vivos fossem, eu me perguntava se a avó estaria convencida da própria existência e, igual, da nossa. Seria possível que fossemos apenas espectros de vidas pregressas, prisioneiros de uma dimensão entre o tempo e o espaço?

Num daqueles encontros, sem que eu pedisse, a avó se pôs a ministrar-me um passe. Uma velha índia começou a dançar em torno de mim, emitindo gemidos musicais. Mesmo ciente do meu ceticismo em relação àquele ritual, ela perdurou no gesto. No fim, envolvendo nas suas mãos minha cabeça, disse:

“Tu precisas acreditar em ti”.

Ao deixar o pensionato, procurei do portão da rua a janela de seu quarto. Detrás dos vidros, fustigados por flores ao vento, ela sorria e acenava. Acontecia sempre isso.

Naquele tempo eu ainda tinha uma vida inteira pela frente. A boca da rua me aprisionava às suas imposições, cobrando-me talentos até então ocultos de mim. Na invisibilidade da velhice, nada havia que precisasse ser provado pela avó.

Numa madrugada, anos mais tarde, depois que terminei a universidade, uma carona me esperava para ganhar a vida em outra cidade, outro estado. Lágrimas em frente da casa onde cresci, mudos afetos familiares comunicados em forma de beijos e abraços. Não me despedi oficialmente da avó, que permaneceu no pensionato, comungando com as freiras, recebendo espectros e ouvindo-lhes as aflições.

Um dia, doente, consentiu em mudar-se para o apartamento de uma irmã de minha mãe. Num fim de tarde, aninhando-se no colo da anfitriã, no sofá, suspirou fundo, muito fundo e se foi.

De volta à cidade, após 22 anos fora, outro dia passei a pé na frente do pensionato e, claro, podes imaginar o que senti.

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

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