“Não sei quem vazei a gravação” é um exemplo de oração com sujeito oculto

Nas insuportáveis aulas de análise sintática, aprendemos que o sujeito é um dos termos essenciais da oração. É ele quem manda no verbo – e antigamente o verbo tinha que obedecer, num relacionamento abusivo chamado “concordância verbal”.

Recapitulando, há vários tipos de sujeito.

Na oração “O presidente posou para a foto de moletom e chinelo”, “o presidente” é um sujeito simples. Beirando o simplório.

Já em “Zero Um, Zero Dois e Zero Três deviam assessorar o pai, em vez de complicar a sua vida”, os zeros 1, 2 e 3 são um sujeito composto – ainda que nem sempre com a devida compostura.

“Não sei quem vazei a gravação” é um exemplo de oração com sujeito oculto. Não muito oculto, mas é.

Tem também o sujeito indeterminado: “Distorceram a fala do Moro para criar uma treta”, por exemplo. Determinados sujeitos são experts nisso.

E há orações sem sujeito (esta é uma delas).

O que nossos mestres (e o Paschoal Cegalla, o Evanildo Bechara, o Celso Cunha) não sabiam é que existiria um dia, além do sujeito subentendido, o sujeito desentendido.

“Moral de Sérgio Moro está esvaziando igual a pneu furado, diz leitor”.

Esse “leitor” – com quem concordam somente o verbo “dizer” e os esquerdistas – é um caso clássico de sujeito desentendido. Ou que se faz de.

É, não bastasse, um sujeito obstinado:

“Governo Bolsonaro tem semelhanças preocupantes com os do passado, diz leitor”.

“Jair Bolsonaro teve um desempenho pífio em Davos, diz leitor.”

“Já basta a enxurrada de textos favoráveis ao golpista Guaidó’, diz leitor.”

“Renan Calheiros não merecia ser tratado de forma sórdida, diz leitor.”

Esse leitor é um sujeito que devia ler mais. Buscar outras fontes, sei lá. Ou escrever para outros jornais, não sempre para o mesmo.

O principal concorrente do sujeito desentendido é o sujeito imaginário, onipresente na mídia digital.

“Estudos comprovam que quem diz palavrão é mais inteligente”. “Estudos comprovam que o irmão mais velho é o mais bonito”. “Estudos comprovam que abraçar árvores faz bem à saúde.”

O verbo “comprovar” deve morrer de vergonha do mico que está pagando ao concordar com “estudos” que não existem.
“Pabllo Vittar quebra a internet ao postar foto usando biquíni fio dental”.

“Especialista afirma que intervenção federal não impacta a criminalidade.”

Eu, se fosse os verbos “dizer”, “quebrar” e “afirmar”, não ia me sujeitar a uma coisa dessas. Instituiria a discordância verbal e me recusaria a trabalhar nessas condições.

Eduardo Affonso é colunista de O Globo e, por caridade, do Amigos de Pelotas.

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