A senhora de passinhos miúdos e grandes distâncias. Por Odilson Silva

Odilson Silva (Facebook do autor)

Frequentemente, eu via uma velhinha andando pela rua, carregando uma cadeirinha de alumínio e uma sacola plástica.

O que chamava a minha atenção era que seus passos eram tão pequenos que não chegavam a 10 cm. Mas, com passinhos miúdos e rápidos, percorria grandes distâncias.

Volta e meia, quando cansava, sentava-se no banquinho e encostava-se em alguma parede.

Há algum tempo, ela fica nos corredores da Santa Casa, sentadinha.

Recebe o carinho a atenção de alguns funcionários.

Faz suas refeições lá mesmo, no hospital. Durante as noites, dorme sentada em alguma poltrona do setor de internações.

Muitas vezes, quando eu chego ao consultório, vejo pequenos caracóis nos canteiros e me lembro da velhinha, que carrega sua “casa” sobre os ombros.

Seu banquinho, que não tem sequer um encosto, é toda a sua mobília e seu porto seguro.

Eu nunca havia conversado com ela.

Hoje, quando cheguei no hospital, ela estava sentadinha no corredor.

Com o dia nublado, era apenas uma sombra mais escura, que se via de longe. Pensei em fazer uma foto, mas não tive coragem. Eu não sabia sequer o seu nome.

Depois que vi os doentes, peguei a máquina fotográfica e desci, com a intenção de pedir permissão para fotografa-la. Quando cheguei no corredor da saída, ela não estava mais lá. Pensei:

“Que pena…”

Mas quando passei pelo refeitório, a vi caminhando, com o banquinho pendurado no pescoço. Mesmo sem permissão, fotografei e fui conversar com ela.

Perguntei se ela podia sentar para conversarmos. Ela concordou e mostrou-se bastante simpática.

Depois de conversarmos bastante, pedi permissão para fazer as fotos e tentar conseguir ajuda. Ela disse que eu poderia fotografa-la, mas que não adiantaria, pois até já havia sido entrevistada pela televisão.

Quando fui fazer a primeira foto, ela fez questão de esconder sua bengala, para não parecer que tinha alguma dificuldade para caminhar. Insisti que não precisava esconder a bengala.

Ela riu, contou mais algumas histórias, sorriu para mim e, finalmente me confidenciou seu maior medo: Ela precisa de um lugar para ficar, antes que chegue o inverno.

Dona Neli, com seus 84 anos, não gasta seu tempo com lamentações. Perdeu vários familiares, em um curto intervalo de tempo e não tem ninguém que possa cuida-la.

Tem alguns sobrinhos, que não moram na cidade. Conta com a boa vontade de pessoas solidárias, que permitem que ela tome banho e, ocasionalmente, a acolhem.

Sabe que precisa ficar em alguma instituição, pois não conseguem mais ter independência.

Há algum tempo, permitiram que ela dormisse em uma casa, mas ela caiu no banheiro e não conseguiu mais levantar, sendo achada caída no dia seguinte. Isso me lembrou da minha mãe, que se recusava terminantemente a morar em qualquer lugar que não fosse sua casa e não permitia que ficasse alguém para cuida-la.

Quando me despedi, com a promessa de tentar ajuda-la de alguma forma, perguntei se podia lhe dar um beijo. Sua resposta: “Pode, se tu não se importa”. E sorriu comovida e agradecida, depois que lhe beijei a testa.

Na volta para casa, vim pensando na minha mãe, que morava a mais de 4000 km de distância. Um telefonema ocasional não é suficiente para aquecer o coração de uma mãe.

Mandar dinheiro no final do mês, não compensa a ausência. Uma visita anual não atenua a saudade.

Precisamos dos nossos e os nossos precisam de nós. O tempo todo.

Quem são os nossos? Nossos pais, filhos, companheiros, amigos…

Mas, de forma especial, nossos velhos precisam de nós.

Enquanto alguns ostentam, Dona Neli carrega seu banquinho no pescoço.

Enquanto alguns escondem malas cheias de dinheiro, outros não tem dinheiro para a próxima refeição.

Enquanto uns definem seus próprios salários, outros não sabem sequer o que significa a palavra salário.

Enquanto alguns, que não precisam, recebem auxílio para roupa, transporte, moradia, etc, outros não tem o mínimo para uma vida digna.

Fica o pedido: Se alguém puder, de alguma forma, ajudar a Dona Neli, por favor, ajude.

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