Os bombeiros (e a Guarda Municipal) pisaram na bola

Se havia alguma dúvida sobre a falha dos bombeiros no caso do incêndio que destruiu no domingo (24) a estrutura interna do antigo prédio da Secretaria de Educação (Smed), ela terminou no começo da manhã desta terça, quando as chamas tornaram a aparecer pela terceira vez no mesmo imóvel.

Nunca se viu em Pelotas um prédio incendiar tantas vezes em tão pouco tempo.

Não duvide se o calor subir pelas paredes a quarta vez; pensando bem, é bom a gente parar de fazer suposições.

Houve falha, né!?

Todos os indícios levam a crer que houve falha dos bombeiros, embora não se possa afirmar com total segurança hoje. E da Guarda Municipal também.

Há um inquérito na Polícia Civil, instaurado quando do primeiro incêndio, de madrugada. O próprio delegado deve ter se espantado com o que aconteceu depois, quando veio o segundo incêndio, ocorrido por volta do meio-dia, fazendo arder tudo até deixar só a carcaça do prédio.

Não se sabe se será apurado tb o terceiro incêndio, às 8h da manhã desta terça-feira (26),verificado de maneira verdadeiramente sinistra, quando parecia não haver mais nada a ser destruído.

Lá vieram os bombeiros de novo, agora velozes e com sirenes ligadas, como na segunda vez, fazendo lembrar um antigo filme dos policiais da Keystone, relembrados na foto acima (depois pesquise mais a história no Google).

Os bombeiros deram por apagado o fogo na madrugada, lá pelas 3h, quando estiveram no local aplacando o que parecia um foquinho de chamas nada grave, e foram embora. Foi tudo tão tranquilo que ninguém saberia, a não ser os vizinhos, além deles, pois chegaram mansamente na penumbra. Um leitor fez uma foto do caminhão, esta abaixo, tirada lá pelas 3 da madrugada.

Tudo na mais absoluta paz.

Tudo começou a perder o sentido lógico, além do controle, quando veio o segundo incêndio, na manhã de domingo, lá pelo meio-dia, aí sim com tudo – pra finalizar o que havia começado na terceira hora da madrugada, na estreia do capítulo piloto do seriado.

Dessa vez foi “fatal”.

Ninguém morreu, mas não sobrou nada além das paredes centenárias da construção.

Se havia documentos perturbadores ali dentro, e a prefeita garantiu em nota no site da prefeitura que não havia, não sobrou meia página chamuscada que seja.

O prédio, vc sabe, é do Município, apropriado de um antigo barão.

As instalações estavam desconfortáveis e perigosas e a prefeita Paula autorizou a mudança do pessoal da Smed para outro prédio, mais moderno, agora alugado – não de um barão, mas de um emergente, em função de uma emergência funcional que desembocou num chamado à emergência 193, do corpo dos bombeiros.

Três emergências, como os três incêndios – duas tríades.

Se vc quiser deixar a coisa perfeita, alcançando três tríades, e ainda dar um toque extra, acrescente à história, por absurdo que seja, a viagem dos três reis magos pelo deserto, com seus três camelos, três sedes e três presentes, mirra, incenso e “ouro”, tudo para agradar o “menino”.

Surpreendente

O major Rodrigues, comandante da corporação, disse ao Amigos de Pelotas que o segundo incêndio, que consumiu tudo, pode ter sido provocado por um morador de rua.

Pode ter acontecido? Pode. Mas parece improvável, até porque o incendiário não ia se preocupar em fechar a porta antes de sair. A servidora da UFPel Janina Feijó, moradora próxima da antiga Smed, passeava pela calçada quando viu, pelo vão de um vidro quebrado, que havia fogo numa medida controlável, e ligou para alertar os bombeiros no 193. Isso era lá pelas 10h45 da manhã.

“Enquanto eles não chegavam, tentou forçar a porta, mas estava fechada, com reforço de um arame . “Um rapaz tentou me ajudar dando pontapés na porta, mas ela não cedeu”, contou.

Depois disso, vc sabe.

20 minutos após Janina ligar chegou o primeiro dos três caminhões de bombeiro que, diante da audácia do fogo, viriam em comboio para tentar domar o que, nesta altura, era indomável.

Investigação

“Um inquérito na Polícia Civil vai esclarecer tudo, não sabemos o que houve”, disse o major  Rodrigues, mesmo que, por hipótese, sugeriu que um morador de rua possa ter posto fogo no prédio na segunda vez ou até na primeira. O tal morador de rua seria como o famoso “sujeito oculto” das aulas de português, aquele que, como Deus, não aparece, mas está ali.

Pode ser que o major Rodrigues tenha razão.

É preciso mesmo esperar o fim do inquérito, embora, como se sabe, por mais que os homens investiguem um tema, nunca sabem direito o que dá origem a uma cadeia de eventos; além disso, em geral é a cadeia e seus efeitos que prevalecem na memória, não a causa que a inflamou.

Olha, pegou fogo de novo…

Quando a história parecia avançar para fato consumado, eis que o advogado Tiarajú Rolim Silveira manda uma mensagem ao Amigos, na noite desta segunda-feira.

“Eu vi a reportagem do jornal e queria deixar registrado que eu e minha mulher moramos na Neto, a meia quadra do prédio que queimou, vimos a fumaça forte saindo e procuramos socorro. Telefonamos para a Guarda e os bombeiros, bem cedo, tenho registrado aqui no telefone. Primeiro liguei eu, para a Guarda Municipal, às 8h20, alertando.

Como a fumaça não parava de aumentar, minha mulher ligou para os bombeiros uma hora depois, às 9h25. Eles nos disseram, porém, que não era nada demais, que era rescaldo (linguagem dos bombeiros para se referir as emanações comuns depois que um incêndio é apagado)”.

Não era “rescaldo”, mas um tremendo fogaréu que provocou o comboio tardio de três carros de bombeiros, com perdão do trocadilho e do neologismo, devidamente ensirenados.

O primeiro carro chegou depois das 11h da manhã, quando o fogo já era alto demais, maior que a escada da corporação. Não houve água que chegasse. Nada.

Pois na manhã desta quarta-feira, para espanto da redação, o mesmo Tiarajú escreveu por whats.

– Cara, tá pegando fogo no prédio de novo.

– Sério?

– Sério.

– Manda uma foto?

– Mando mais…

E foi assim que a manchete publicada no jornal no final da noite de ontem, de que os bombeiros foram avisados por Tiarajú e a esposa com antecedência de cerca de três horas em relação ao momento em que os bombeiros finalmente se abalaram, quase perde lugar para esta nova.

Mas não.

A equipe achou que os registros fotográficos telefônicos do horário dos alertas feitos e enviados a nós pelo casal ainda era o fato novo mais importante do episódio.

O incêndio da manhã de hoje, terceiro, foi só para torrar a paciência da gente mais um pouco. O serviço já estava feito.

A não ser que o sujeito oculto (morador de rua) tenha decidido aparecer uma terceira vez no mesmo lugar do crime para cometê-lo mais um pouco.

Por precaução, eu nunca duvido de nada..

Não dizem que o criminoso sempre volta ao local?

Então!

Vai saber…

(No fim, a manchete aquela acabou perdendo espaço para esta). Valeu!

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

Guarda Municipal foi avisada da fumaça na Smed às 8h20 de domingo

URGENTE: PRÉDIO DA PREFEITURA ESTÁ PEGANDO FOGO DE NOVO

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