O amplo espectro

Mesmo que a gente tente fugir, o ‘piloto automático’ te pega e atropela.

Aqui no Amigos de Pelotas, hoje em dia publico até release oficial na íntegra, lendo sem ler, quando parece útil e inteligível.

Em geral eles passam voando por mim.

Preciso ser apressado porque os leitores têm pressa.

A coisa é assim.

Título do release da prefeitura: “Lei que PRIORIZA atendimento a autistas é regulamentada em Pelotas”.

Pensei: “Isso é legal, as pessoas vão se interessar, já que temos um centro de atendimento que é referência nacional e tantas pessoas diagnosticadas com autismo, 400 delas frequentam o centro e 300 outras esperam na fila”.

Uma foto e pá — lá foi a “voz oficial” desaguar nas redes sociais. Pelo menos eu aviso que a voz é oficial.

Agora fui ler pela primeira vez com toda a atenção e me dei conta de novo, pois às vezes esqueço, que a vida é mesmo um giro. O importante é o “giro”, o movimento das coisas. Todo mundo ganha no giro.

Antigamente os policiais se aproximavam dos vagabundos nos bancos de praça e diziam “circulando, circulando”. Não era à toa.

O autista, por exemplo.

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O projeto do deputado Viana, regulamentado por decreto pela prefeita, se refere a autistas que se agitam e se desorganizam em espaços com muitas pessoas e têm pouca tolerância para esperar em filas”.

Até então nunca me havia passado na cabeça que já fosse necessária prioridade à pessoa autista, considerando a lista de peculiaridades humanas que tornam todos nós mais ou menos dignos da primazia nos atendimentos.

Viana disse mais:

“O autismo está presente em todos os lugares, na escola, na comunidade, na família, no grupo de amigos. É preciso conhecer o autismo para entender como podemos conviver, interagir e promover espaços inclusivos, respeitando e possibilitando harmonia nas relações”.

Às vezes eu penso que os problemas jamais se solucionam de vez porque Deus armou uma artimanha que consiste em não nos deixar sem ter o que fazer.

Eu entendo o movimento, a necessidade dele, posso imaginar o que há por baixo de um “circulando, circulando”.

Uma pessoa imóvel na multidão é muito mais incômoda do que todas se movendo.

Às vezes eu tenho a sensação de que todos nós, sem escapar um, pertencemos ao “amplo espectro”.

Cada um na sua, uns mais agitados do que outros.

Há um tipo de autista que me diz um pouco mais ao íntimo.

Naqueles casos, em que a pessoa recusa o movimento. Pode ficar longas horas mirando um ponto fixo, sem dizer nada, para aflição dos demais.

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© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

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