Não sei o que seria de nós sem o amor das mulheres

Numa entrevista no final dos anos 70, início dos 80, Brigitte Bardot, explicando o motivo de sua súbita decisão de abandonar o cinema e dedicar-se à defesa de animais vítimas de caça predatória, respondeu que “ela entregara sua juventude aos homens”, mas que “reservaria sua maturidade aos bichos”.

Naquela época, o ativismo da então ex-atriz francesa soava excêntrico, mas havia algo mais em sua declaração.

Com ela, denunciava o homem como espécie, mas também como gênero, sugerindo que se equivalem a predadores quando veem as mulheres como  meros objetos sexuais, desconsiderando outras dimensões do universo feminino.

Sabia do que estava falando.

Caçada pelos homens, presa cúmplice de muitos romances, não à toa BB passou a despir os véus da mitologia sexual com que o cinema e a imprensa a cobriram.

Sua conversão de lenda esculpida por Deus para “dar prazer” em ativista “preocupada com algo mais que o próprio umbigo” causou espanto.

Para ela, contudo, parecia haver um significado maior: cedo ou tarde, toda pessoa sente necessidade de encarar sua verdadeira imagem, nauseada pela ideia de vir a ser enterrada com uma máscara mortuária que não a sua própria.

Muitas estrelas do cinema passaram e passarão por crises como essa. Ainda lembra da Greta Garbo?

“Nunca me senti bonita, porque não fui amada pelo que era, mas pelo que representava. Busquei em vão meu verdadeiro amor”, disse BB. Acabou direcionando-o para os animais.

Saiu-se bem, amor com dedicação.

Uma pessoa de fato se torna interessante quando deixa de corresponder às expectativas dos outros e se apropria de sua vida.

Amor aos animais

Lembrei de Bardot, observando a timeline do Facebook, onde mais e mais mulheres declaram amor aos bichos.

O amor de BB pelos animais aparentemente resultou de um ponto-limite, de um rompimento com um modo de vida e eu diria que foi até um rompimento com a espécie humana (homem no sentido total). De repente, ela mudou da água pro vinho.

Adotou novos valores e padrões de comportamento.

Às vezes, tenho impressão de que todas as mulheres que amam os animais e até se tornam ativistas da causa, mulheres que vejo no face, sentem uma decepção qualquer com os homens. Não é mais que isso, uma impressão.

Parecem cansadas deles, homens, como se a correspondência estivesse aquém.

Homem é mesmo muito previsível, diferente das mulheres, que nos surpreendem a todo instante.

Animais antigamente

Antigamente os animais domésticos se tornavam companhias caras especialmente aos idosos.

Cães e gatos para velhinhos acariciarem e alimentarem como filhos. Papagaios para donas de casa conversarem durante o preparo das refeições. Cachorrões para cegos se locomoverem com maior segurança.

Hoje, mais e mais mulheres jovens e de meia-idade, em plena vida ativa, mantém uma curiosa relação de interdependência com animais.

Para um País que atravessa uma crise sem precedentes, chega a ser um alento.

Na verdade, talvez seja um pouco mais profundo que isso.

A preocupação de BB com os bichos era questão de foro íntimo, como quando, garota, enfiou a cabeça no forno da casa dos pais para se matar.

Qual seria a preocupação das mulheres do nosso tempo?

Mesmo que nenhuma delas tenha repetido o gesto de BB na cozinha, parece haver qualquer coisa de dramático no fato de deslocar a projeção do amor de gente para os animais, por vezes com uma intensidade bonita que só as mulheres têm.

Palmas para BB. Mil aplausos para as mulheres – e para as ativistas da causa animal.

Não sei o que seria de nós se não houvesse o amor desbragado, sem limite, de vcs.

Talvez seja apropriado tb um pedido de desculpas.

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

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