Visita a um centro espírita com nome de suingue

(O textão a seguir mistura fantasia, exagero e ficção.

Todos os personagens (inclusive eu) são imaginários.

Qualquer semelhança é coisa da sua cabeça.

Nenhuma religião sofreu maus-tratos durante sua redação.)

~

Recomendado por um amigo que teve lá uma poderosa experiência místico-etílica, me embrenhei pela Zona Oeste no afã de conhecer um afamado centro espírita com nome de clube de suingue.

Chegar ao local parecia simples. Era só pegar uma avenida e ir até o fim. Aí virar à direita, continuar toda vida, fazer o retorno e seguir adiante até não poder mais. Nesse ponto, quebrar de novo à direita, à direita outra vez e prosseguir até a rua acabar. Facinho, no mapa.

Mas mapas são cheios de caô. O que devia ser avenida era rua; o que era para ser rua era estrada; a estrada era um caminho e o caminho, uma trilha. E bem numa encruzilhada (tinha que ter uma encruzilhada!) o GPS ficou sem sinal.

Até então, o mapa mandava virar sempre à direita e, como na política, achei que essa parecia a melhor opção. Só que, exatamente como na política, virar à direita não levou bem aonde eu imaginava. Acabei numa picada em aclive acentuado mata adentro, sem ter como manobrar para dar meia volta. Chegou um ponto em que ou descia a pirambeira toda de ré ou ia em frente morro acima até as últimas consequências. Fui.

Começava a escurecer quando apareceram algumas casas, e gente (felizmente, do bem) se preparando para um pagode. Cumprimentei, expliquei que estava perdido (“O senhor tava indo pro centro? Ih, é lá embaixo.”), manobrei por cima de um monte de brita, fiz o caminho de volta e finalmente encontrei o meu destino.

O lugar é bacana. Organizado. Todo mundo uniformizado, com crachá. A sessão era numa clareira na mata. Aquela noite, uma gira cigana. Com fogueira e tudo.

Esse “e tudo” incluía altares, archotes, bufê 0800, pontos ciganos (baila baila baila baila, baila baila baila me; esta rumba ta gitana, que yo siempre cantaré) e esquadrilhas de muriçocas (o repelente, assim como o estacionamento, era 0300). E fazia calor. Muito calor.

O centro não tem atabaque, sineta, caxixi, agogô. As entidades descem atraídas por um pendraive com a setiliste da sessão. Essa começou com Santa Esmeralda (e a invocação “oh lord, please don’t let me be misunderstood” em ritmo flamenco) e engrenou de vez com o the best of Gipsy King.

Fogueira acesa, o lugar foi sendo tomado por ciganas da Casa Turuna, pombagiras, feiticeiras wicca e toureiros estilizados, que aos poucos iam incorporando suas respectivas entidades.

Caboclo cigano que baixa aos acordes de djobi djobá cada dia jo te quiero má, djobi djobi, djobi djobá pode alegar tudo, menos que não foi avisado. Mas – como eu depois de errar o caminho – nem ele tem como dar marcha a ré e retornar em segurança para as esferas vibratórias. O jeito é ir até o fim.

Começaram as consultas. A simpática senhora ao meu lado, percebendo minha inexperiência nesse tipo de evento, tentou dar o caminho das pedras (“Primeira vez que o senhor vem aqui, né?

A melhor cigana é a daquela árvore ali. Ela diz tudo, sabe tudo.”). Tudo o quê? (“O que o senhor perguntar. O senhor vai lá e pergunta, ela responde. Ou nem precisa perguntar, ela já fala tudo que o senhor quer saber.”).

Medo. Vai que eu chego e ela me diz que cigana da Casa Turuna é a avó, e eu saio de lá com uma verruga no nariz. Melhor não.

Escolhi uma que não tivesse fila (a da árvore, só para quem pegou senha). Era loura, não fazia a linha Maria Padilha – e talvez por isso a demanda fosse menor. Atendia um senhor e, mesmo em transe, não abria mão da visão periférica – não sei se perscrutava com rabo de olho a popularidade da sua fila (resumida à minha pessoa) ou se avaliava as reais intenções deste seu solitário pretendente. Só terminou a consulta quando uma mulher se postou atrás de mim. Então deu um último passe, suspirou e… chamou a mulher atrás de mim, não eu.

A fura-fila era uma coroa bonita, com a idade indefinida típica das coroas bonitas (as coroas nem tão bonitas eram maioria, por isso essa se destacava). Do onde eu estava, era possível ouvir o que falava. Nem precisava: pelo tom da voz e pelas lágrimas, só podia ser mal de amor. Chorou de soluçar, diante da cigana de olhos semicerrados – com direito a espiadelas eventuais para a fila que, novamente, era só eu. Deram-se um abraço apertado, trocaram sorrisos de gratidão e a consulente se retirou exultante, reenergizada.

Me aproximei achando que era a minha vez (do quê? só na hora é que eu ia saber) mas a cigana não quis ler o meu destino. Traçou uma reta rumo à fogueira e me deixou no vácuo. Sinal que de boba não tinha nada.

Resolvi dar uma última volta. Se não desse match com nenhuma outra, paciência. Todo picado de muriçoca (inocentemente, fui de bermuda), não tinha mais nada a perder.

As filas continuavam enormes e as zíngaras disponíveis não me pareciam muito confiáveis. Ou porque lembravam Sandra Rosa Madalena ou porque se comunicavam num portunhol de deixar Dilma com dolor de cuetovelo.

Já ia embora quando finalmente rolou um contato visual promissor – e ao som de Hotel Califórnia (such a lovely place, such a lovely face), o que me pareceu bastante auspicioso.

Para meu desencanto, ela não estava incorporada. Segurou minhas mãos, e conversamos como naqueles encontros marcados pela internet (“O que você procura aqui?”, “Fale-me de você.”). Eu não queria falar de mim, nem podia dizer o que procurava ali. Recomendou que me livrasse das más energias, atirando-as à fogueira. Fiz cara de cético – a mesma que devia ter sido responsável pelo pé na bunda desferido pela cigana anterior.

Aí desarmei o espírito, assumi que devia mesmo estar precisando me livrar de alguma uruca e contei do toco que tinha acabado de levar da sua colega de saia xadrez (que, depois de me dar um perdido, retornara ao seu posto e voltara a clinicar).

Ela abriu um sorriso, declarou que isso estava traçado, que o meu destino ali era falar com ela, não com outra, e pediu permissão para dar uma bênção cigana. Concordei – eu normalmente topo primeiro, para só depois, quando já é tarde demais, me inteirar dos detalhes.

Me cobriu com a saia, sussurrou o que soava como uma prece e começou a apalpar, com intenções que me pareceram apenas parcialmente mediúnicas. Naquele reflexo condicionado de quando me apalpam, murchei a barriga e estufei o peitoral (o supino ainda não fez efeito, mas já estou treinando para quando fizer). O ritual durou poucos minutos, de modo que deu para segurar o fôlego e manter abdome, coxas e glúteos em condições de apalpabilidade.

Agradeci a massagem – digo, a bênção -, ganhei uma maçã perfumada (que era para deixar murchar, levando consigo os maus fluidos, mas que já virou suco) e dei uma passada pelo bufê, a essa altura sem nem sinal dos damascos, figos, uvas e ameixas. Consegui uma banana e quando saí, defumado e melado de suor, os gitanos bailavam em torno da fogueira ao som de “volare, ô ô ô ô, cantare”. Paguei o estacionamento, e zarpei, felice di stare lassù.

Agora que já sei dos esquemas, quando for de novo dou uma demão de repelente nas pernas (por causa das muriçocas, não das entidades libidinosas). E passo no bufê antes da consulta.

© Eduardo Affonso é colunista de O Globo e, por caridade, nosso tb.

Facebook do autor

Contatamos ele e pedimos autorização para publicar seus excelentes textos no facebook conosco. Gentilmente, ele consentiu.

 

 

Obrigado por participar.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.