Profissionais admiráveis: Rubens Amador Pai

Outro dia mandei uma mensagem ao meu pai: “Eu te amo”. Ele respondeu: “Eu também te amo”.

Ao contrário do Dia da Nossa Concepção, o anual Dia dos Pais foi inventado depois que já caminhávamos pela Terra. Portanto, é a data menos importante do calendário emocional, composto por algo mais profundo que uma selfie pode revelar.

Este texto é para a sessão Pessoas Admiráveis. Gente que a gente admira e enaltece – com sinceridade

Ele foi publicado há mais tempo, mas reaproveito porque acho que, se não diz tudo, diz muito do que sinto por ele.

Rubens Amador Pai sempre gostou muito de escrever!

Desde garoto eu o vi escrevendo.

À noite, quando voltava para casa, ainda com roupa do trabalho. Nas manhãs de domingo, de pijama.

Como os artesãos, tudo sempre que ele escreveu foi à mão. Nessas ocasiões, sua fisionomia era a de quem está longe.

Eu ficava olhando…

Ele lá, escrevendo seus artigos expositivos, reclamatórios.

Ele lá, contando histórias recheadas com alegres doses de malícia perdoada. Muitas coisas tristes também, empapadas daquela ambígua melancolia chapliniana.

Ele lá, escrevendo contos.

Na maior parte do tempo lá, escrevendo crônicas observações que nunca conseguiu evitar fazer pela vida.

Ele se esforçou comigo para eu me tornar médico.

Tenho em minha posse uma fotografia desbotada: eu com dois anos de idade vestido de branco, com um gorro de cor igual na cabeça pintado na fronte com uma pequena cruz vermelha.

Estou voltado para ele, sobre uma poltrona, com aquele ar alheio dos bebês. Encostando um estetoscópio no peito nu do meu pai, que faz cara de doente, erguendo as pérolas negras de seus olhos até elas sumirem debaixo das pálpebras superiores e deixarem na cavidade um vazio branco.

Mesmo assim, como sempre, meu pai aparece bonito na fotografia. Com o semblante jovial dos 36 anos e seu cabelo preto e forte de índio, mesmo com os seus grandes olhos escondidos.

Não saí tão parecido com ele na aparência. Minha mãe ganhou esta parada! Ela conseguiu fazer prevalecer em mim os seus valorosos genes germânicos.

Dele herdei os dentes incisivos, as mãos e o diâmetro dos olhos. Também o movimento dos globos oculares. Aqueles olhos de índio distante.

Pelo que andei pesquisando, olhos verificáveis em remotas regiões, numa tribo de homens que, sob o efeito da aspiração de ervas nativas, se abandonam num salto ao infinito, que é o vazio iluminado, capazes então de saírem de si mesmos e de se dividirem em dois.

Olhos profundos, puros e cismados.

Não guardo a foto em lugar especial. Está numa caixa de papelão, em meio a outras, onde conservo algumas lembranças.

Mas a imagem de mim auscultando o coração do meu pai me ficou. Há uma “coisa” nela. Como se contivesse um significado, algo mais importante do que o revelado.

Não cursei Medicina. Fiz Jornalismo. Me formei e fui-me embora por 22 anos. Lá pra Brasília, até que voltei.

Às vezes penso que há uma razão sideral para a cadeia de eventos de uma vida que não é possível conceber. Falo assim pensando no que encontra e choca duas pessoas, no que nos aproxima e afasta, nas correspondências e dissonâncias, nos espelhos e nas expansões.

Antes de continuar a falar da pessoa admirável do meu pai, eu gostaria de dizer que espero ter a chance, uma chance que fosse, de poder ver todos os elementos reunidos na sala, como naqueles filmes de detetive de antigamente, para que tudo fique esclarecido.

Desconfio que não será possível. Não faz mal, porque sempre fica o sentimento.

Nascer e morrer são dois acontecimentos superiores. Muito maiores que o intercurso amoroso, esse momento mágico docemente chamado pelos franceses de a pequena morte, como uma antecipação.

Nascer e morrer é maior que tudo que nos ocorra.

Morrer de amor quer dizer tantas coisas que não poderia explicar.

Quanto aos desencontros, hoje eu sei que foi só uma pitada de uma especiaria qualquer que Deus, com seu peculiar senso de humor, pingou em nós na Criação, para dar um toque na aventura.

ELE sempre procura embaraçar um pouco as coisas para que a vida tenha um tempero especial.

O melhor Dia dos Pais é quando um filho nasce. O pior, quando um filho diz adeus.

Agora dou por mim há duas horas – sozinho – fazendo o mesmo que ele fazia naquelas longínquas manhãs de domingo. Com a ‘caneta’, o papel e a expressão distante dos índios capazes da divisão do espírito em dois.

Pesquisando um pouco melhor, eu descobri que aqueles índios não se dividem de verdade. Algo neles tem a propriedade de se desdobrar apenas pelo prazer de se reencontrar depois.

Por estranho que pareça, mesmo que se sintam cindidos nos momentos de suas emancipações, o tempo todo eles foram um só.

Meu velho sempre diz que “Os AMADORES” têm uma sina: “são longevos”.

Como que movidos pela teimosa propensão de se demorar o maior tempo possível por aqui.

Talvez porque o verdadeiro amor só se realize nesse ponto.

Quando todas as esperanças se foram. E ele ainda está lá.

TE AMO, E ME ORGULHO, PAI.

Mesmo sendo Amador, vc sempre foi um Profissional.

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

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