Carnaval de passarela de Pelotas é pobre, mas a questão não é essa

Na boa, sem ser arrogante, apenas sincero.

Eu acho o carnaval de passarela em Pelotas, em termos estéticos, pobre.

Isso é o que eu acho, opinião que pode não coincidir com a de outras pessoas. E eu diria até que é inevitável, e até mesmo bom, que não coincida.

Nosso carnaval de desfiles em pista fechada paga não é como Joãozinho Trinta, que marcou a história moderna das artes levando a beija-flor da pobreza como luxo para a Marquês de Sapucaí, numa madrugada de 1989. Em Pelotas, e arte é diferente.

Por aqui, a arte no carnaval de passarela paga é que a pobreza é autêntica, assumida, não se traveste de luxo, como nas colunas sociais.

O bonito da coisa é justamente o feio.

Veja, eu disse que esteticamente é pobre. Mas não disse que acho isso ruim.

Se quer saber, acho é bonito de ver. Maravilhoso ver os foliões curtindo a vida sem preocupações de ordem material.

O que estou tentando dizer é que o ESPETÁCULO – HOJE AO MENOS – NÃO VALE O INGRESSO.

Por que as pessoas pagam para ver desfiles tão ruins esteticamente?

Na minha opinião, elas pagam ingresso para se encontrarem umas com as outras, ampliar os laços, sentirem-se parte de uma comunidade.

E, sendo assim, o encontro poderia ocorrer em pista aberta, sem que se cobrasse ingresso para isso.

Em Pelotas, o povo faz o carnaval, não a prefeitura ou os empresários.

O melhor carnaval pelotense tem sido o de bandinhas na rua, criado pela prefeitura, que, aliás, merece aplauso por ter pensado nisto em certo momento.

Se quiserem manter os desfiles de entidades em passarela, ao menos que não se cobre ingresso por isso, ou, cobrando, que o valor seja residual.

Hj o povo paga por algo que ele mesmo oferece, o que, no fundo, é bonito.

Uma prova comovente de resistência da autoestima.

CARNAVAL PELOTENSE: POVO PAGA POR ALGO QUE ELE MESMO OFERECE

Carnaval de passarela de Pelotas é pobre, mas a questão não é essa

Joãozinho 30, em 1989, segundo o jornal O Globo

Joãozinho 30; Na Beija-flor, o lixo como luxo foi artístico que

Um delírio coletivo, único, hipnotizou os milhares de corações foliões que lotavam a Sapucaí, naquela madrugada abafada de domingo, no meio de fevereiro de 1989, e, de tão intenso, contagiou até quem estava ali para avaliar o que via. “Eu vou para a cadeia com o João!”, clamava Fernando Pamplona, em transe, monopolizando a transmissão da finada TV Manchete.

Diante dele, do público da Passarela e dos telespectadores passava aquele que, na opinião de muita gente boa, será para sempre o maior desfile de todos os tempos. Um quarto de século atrás, a Beija-Flor de Joãosinho Trinta fez do lixo seu enredo para produzir um espetáculo histórico, que eternizou o carnavalesco no panteão da folia.

Um conjunto de fatores transformou o desfile em algo mítico, que transcendeu as fronteiras da festa. “Pai” artístico de Joãosinho, Pamplona referiu-se, em seu comentário — feito na transmissão do Desfile das Campeãs —, à censura que obrigou o Cristo Mendigo a passar coberto pela avenida na apresentação oficial.

Numa transgressão inesquecível, emoldurada por aplausos e gritos da plateia lotada, componentes da escola arrancaram o plástico preto da escultura e a faixa gigante, que gritava “Mesmo proibido, olhai por nós”, para escrever a História em plena pista.“Momento glorioso, glorioso! O povo aplaude. Acompanhem, pelo amor de Deus! Jamais vi um espetáculo tão bonito, gente!

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

1 thought on “Carnaval de passarela de Pelotas é pobre, mas a questão não é essa

  1. Quem falou que o que “vale$” no desfile é a beleza estética? Isso -o quanto- precisa de uma pesquisa de marketing com quem é a raiz do Carnaval, o seu povo.

    O Carnaval é uma festa raiz feita pelo povo para o povo. Assim, 50% dos ingressos, um lado da passarela deveria ser de graça e com qualidade, atendendo uma distribuição justa e transparente dos mesmos.

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