No rio Internet tem até tubarão

A internet é um rio onde muita gente passa o dia pescando na ilusão de que nela/nele tudo é gratuito ou muito barato. Informação sem custo. Relacionamentos inócuos caindo do céu como maná. Acesso irrestrito a obras intelectuais alheias. Espaço ilimitado para escrever tudo que se queira e para expor a vida pessoal, incluindo fotos. Interatividade total. E, no entanto, quase ninguém percebe quem é o peixe.
No rio Internet, onde nada é de graça, o peixe é o usuário. Naturalmente.

Nesse pesque-pague virtual, o mais barato é o caniço — esse teclado simples cujo preço vai de 30 reais às centenas de reais de um tablet ou um notebook ou um PC fixo numa mesa suficientemente robusta para suportar esse aparelho, o monitor(a tela) e a impressora, que ninguém dispensa.

O capital mínimo para pescar nesse rio é R$ 1 mil reais. E a mensalidade? Quanto se paga para ter um provedor? E a linha telefônica que dá suporte a toda a pescaria? Pois se faltar linha, my brother, V. não pesca absolutamente nada.

Sem comunicação com o seu provedor, seu rio passa a ser uma tela vazia. Se tiver alguma ideia na cabeça enquanto a internet não voltar a funcionar, V. precisa voltar a 20 anos atrás, quando seu computador não passava de uma máquina de escrever acoplada a um arquivo sujeito a apagar em caso de falta de corrente elétrica. Captou, brother? Somos multidependentes das companhias de eletricidade e de telecomunicações. Sem elas, estamos no rio sem remos nem canoa.

Agora vamos falar de tudo que está associado ao rio chamado Internet. Temos os dois gigantes – as elétricas e as teles. Se V. caminha pela rua e prestar atenção num poste de luz, talvez não demore a concluir o quanto é precária a vida humana tanto nas cidades quanto na zona rural.

Todo poste urbano é uma alegoria à gambiarra. Uma alegoria explícita que só não nos espanta porque está a cinco ou dez metros de altura, bem acima dos nossos olhos desatentos e nossos passos apressados.

Melhor mesmo não prestar atenção a essa precariedade de fios amarrados nos postes. A gente fecha os olhos e aproveita para esquecer também que depende de técnicos que cobram uma taxa mínima por vistoria no seu computador e, depois, dizem que a limpeza dos vírus custa tanto, a reprogramação mais tanto – e que tal colocar um aplicativo que lhe dará uma memória plus e uma velocidade xyz a mais?

Agora que V. está consciente de que é refém irremediável de um sistema que cobra por minuto todas as facilidades oferecidas pela Internet, lembre-se do significado das palavras monitoramento e segurança. Captou? Coloque-as em letras maiúsculas: MONITORAMENTO E SEGURANÇA.

Assim talvez fique mais fácil compreender que esse rio chamado Internet não garante a privacidade de ninguém pois é monitorado da nascente à foz pelos responsáveis pela Segurança das Instituições, o que inclui desde as Forças Armadas dos EUA até aquele sujeito másculo de óculos escuros e um fonezinho no ouvido que fica na esquina mais próxima de sua casa sapeando o movimento das pessoas em nome da segurança de um estabelecimento comercial ou bancário ou público.

São milhares espionando milhões. No bom sentido, claro. Onde vai parar esse rio? Não perca seu tempo perguntando se o Big Brother do Norte pratica espionagem submarina, ele que dispõe de satélites, foguetes teleguiados e aviões sem piloto para fotografar cada canto do planeta.

No, no, no! No spy! O Donald de plantão e todas as demais autoridades competentes-e-responsáveis negarão as denúncias recentemente feitas por ex-funcionários de empresas de consultoria de que é comum e recorrente a prática do monitoramento dos banhistas e pescadores do rio Internet ao redor do mundo.

Não se esqueça de que o sistema hoje usado pela Internet ao redor do mundo foi originalmente desenvolvido como ferramenta de trabalho no âmbito militar norte-americano, ao qual ficou restrito por cerca de 30 anos, mais precisamente entre os anos 1960 e a primeira metade da década de 1990. Os mais jovens talvez não saibam que a Internet se tornou comercial há apenas 25 anos.

Maravilhoso rio piscoso de águas claras: quem nele souber “navegar” com inteligência certamente não será mordido por nenhuma piranha, não cairá em nenhum redemoinho e nem será levado por alguma enchente.

DITADO DE OCASIÃO
“Com vinagre não se pega mosca”

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