“Marmelada-de-araçá”

Não sei em Pelotas, mas em Porto Alegre e outras cidades da região metropolitana tenho visto cada pé de araçá vermelho…benza Deus.

Caule avermelhado, folhas brilhantes e espessas, esse arbusto nativo – irmão da goiabeira e da pitangueira – ganhou estatura de árvore depois de passar por um longo processo de seleção genética, sob a batuta de pesquisadores como Maria do Carmo Bassels Razeira, da Embrapa de Pelotas.

Quem diria que esse arbustinho atarracado chegaria a dez metros de altura, embelezando as ruas, sombreando as calçadas e dando frutas para os animais urbanos?

Cada araçazeiro da paisagem citadina me faz lembrar que a agronomia também tem um lado bom. Sim, ela é responsável pelo desenvolvimento e aplicação de inúmeros venenos agrícolas que constituem ameaças terríveis, mas também toca em frente pesquisas genéticas que aprimoram diversos vegetais.

Vamos pensar um pouquinho: o homem turbinou a economia, os transportes, a arquitetura, a engenharia, a comunicação. Também deu uma incrementada na agricultura, imprimindo um novo ritmo às plantas.

Aí estão as monoculturas que, para ter rentabilidade, precisam de fertilizantes, de agrotóxicos, de transgenia e outras transgressões do sistema natural.

Aí estão os eucaliptos clonados, os milhos híbridos, as sojas transgênicas, o arroz mutagênico…Temos agora inté o mel glifosado, isso quando as abelhas não morrem na linha de produção entre as floradas e as colmeias, vítimas de biocidas.

Vejam bem, aí estão as tangerinas sem sementes — frutas sem resistência e de sabor anômalo que perecem em dois ou três dias fora da geladeira, pois é provável (acho eu, panteisticamente) que as tangerineiras não compreendem como podem ter sido destituídas da capacidade vital de produzir sementes. Ora, mas não se castram animais?!, perguntará alguém convencido de que a Ciência é superior à Natureza.

A infinita variedade de árvores, arbusto e ervinhas rasteiras sinaliza a estabilidade da Natura. A vegetação é não apenas vítima, mas testemunha biológica valiosa da marcha batida da civilização humana, que vem se fazendo à custa da destruição dos ecossistemas. Que progresso é esse que carrega em si o germe da destruição?

Se por um lado é bom ter frutas do verão em pleno inverno e vice-versa, é conveniente ficarmos atentos não apenas ao que fazem os chamados “melhoristas” de sementes, mas lembrar que existem por aí muitos “pioristas” de plantas. Que cada um se olhe no espelho e decida se quer o melhor ou o pior para o planeta.

Pois bem, essa não é uma crônica mal humorada e, sim, uma memória tocada por leve advertência.

O melhoramento do araçazeiro vermelho é mérito de cientistas da Embrapa de Pelotas, cidade que já foi a capital nacional do pêssego e ainda desfruta da fama obtida com uma doçaria de origem portuguesa desenvolvida no século XIX por baronesas e mucamas.

Vejam que glória: as confeitarias e até alguns armazéns e botecos de Pelotas vendem nada menos do que “marmelada-de-araçá”, assim mesmo como vai escrito. Algumas agroindústrias familiares já escrevem nas embalagens “araçazada”, mas são minoria. Escrevendo “marmelada-de-araçá”, os produtores sabem que serão entendidos pelos consumidores.

LEMBRETE DE OCASIÃO

“…no fundo, no íntimo molecular da vida, árvores e nós somos essencialmente idênticos.”

Carl Sagan, astrônomo, autor da série científica Cosmos

Geraldo Hasse é jornalista

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