Notícias de Pelotas

Trabalho de jornalista é inglório. Principalmente longe dos grandes centros, das grandes luzes.
Nos grandes centros, a pessoa tem a sensação de fazer parte da história de um país, do planeta, algo maior. No município, as expectativas são menores, com frequência notícias parecem com o velho carrossel do parquinho.
Lado curioso, a gente entende com o tempo, se trata tão só de uma questão de escala. Em termos a vida sempre é interessante, em qualquer centro, até que deixa de ser. E, deixando de ser, se ainda assim permanece, nos encarando, quer dizer alguma coisa, merece a nossa consideração.
Tem dias em Pelotas em que a gente sente que não há notícias que valham o esforço de redação. Mesmo assim, procura uma história ou lembra uma, redige e conta pros outros.
Não é particularidade nossa.
Um jornalista em Brasília ou Washington sente e age da mesma forma, apenas numa escala maior; no fim do dia, a sensação é de ter passado correndo para alcançar o trem na plataforma que parece ir para lugar nenhum.
Daí ter voltado pra casa, em 2008, convicto de que havia muitos matizes de luz e sombra no parquinho, todo um mundo à parte, eu é que não tinha olhado direito antes, logo eu, jornalista.
Outro dia, pra me confundir, me saltou um epigrama assim: “O jornalismo distrai a vida”.
Fui pensar nele depois de publicá-lo no Facebook. Às vezes uma voz dentro da minha cabeça me diz coisas só para que eu pense nelas depois. Já falei ao psiquiatra, ele diz que é assim mesmo.
Gostei de cara do ditongo dis-trai. Ele me soou um ensarilhamento de arma, ou seja, um desencaixe engatado para disparar novo encaixe, após cumprir uma função prática.
Concordei com a voz. E talvez tu, se pensar bem, também conclua o mesmo – que “a vida precede o noticiário”, que o último não é mais que a pretensão de ser um retrato, a exposição de uma torrente de perdições sensoriais.
Quando eu era iniciante na profissão, uma chefe querida me disse:
“Quando não tiver notícia, inventa…”.
Eu era repórter de polícia e, com aquela inocência moral do principiante, pensei que ela devia ser uma boa de uma velhaca. Só muitos anos depois fui entender a beleza do que ela me disse.
Hoje em dia, no Amigos de Pelotas, fico explorando o universo de possibilidades em escala menor, o que talvez seja o maior desafio de um jornalista, indagar a vida no pequeno perímetro.
Escarafunchar as origens do drama.

https://amigosdepelotas.com.br/2019/03/15/orgulho-de-ser-vira-lata-por-geraldo-hasse/

Procurando alguma notícia de valor, mais cedo associei a lembrança de duas noticias chegadas ontem e hoje, um release informando da participação da UFPel no 2º Congresso Aeroespacial Brasileiro, e um release da prefeitura, sobre um documentário feito por pelotenses intitulado Cachorros de Pelotas.
A voz dentro da minha cabeça soprou “Laica”.
Essa eu captei o significado antes de me expressar, e comecei este texto.
Há 62 anos os russos puseram a cadela Laica sozinha numa nave e a mandaram para o espaço. Já o documentário pelotense fala sobre cães ao léu pela cidade.
Nos dois casos, abandono, embora o primeiro com finalidades “científicas”, em nome da humanidade.
No século passado, Laica, expandida em escala universal, sentiu o mesmo que sentem, neste século, os vira-latas sem expansão que perambulam à procura dos restos pelotenses.
Questão da notícia, de novo.
Em termos imediatos, ela soa inútil. Em cronologias maiores, pode ter algum significado, como pretendem os historiadores, embora eu mantenha cá minhas dúvidas.
Como Laica, como os cachorros de Pelotas, nenhuma criatura neste mundo chega a entender bem como veio parar nessa nave; uma vez nela, a gente faz o que pode para manter o rumo.
O bom de ser jornalista é que a gente se obriga a exercitar a mente, procurando alguma conexão que permita conclusões novas, outros ângulos, outras formas de ver e expressar.
Os dias mais áridos são como os de hoje, quando simplesmente parece não haver nada de interessante. Mesmo assim, a gente se esforça.
Bacana da coisa, de repente tu descobre uma beleza qualquer no carrossel do parquinho que não havia visto antes. De repente, uma voz sopra ‘Laica’ na tua cabeça, pra tu te lembrar do espaço sideral.

© Rubens Spanier Amador é jornalista.

Facebook do autor | E-mail: rubens.amador@yahoo.com.br

1 thought on “Notícias de Pelotas

  1. Por falar em cachorros de Pelotas, já visse o loteamento só para cães que foi construído em cima da calçada na Rua XV em frente ao Mercado Central? Uma imundice, e pelo que está escrito tem o aval da Prefeitura. Só aqui mesmo…

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