Orgulho de ser vira-lata. Por Geraldo Hasse

Nunca entendi muito bem o que quis dizer o cronista Nelson Rodrigues ao inventar a expressão “complexo de vira-lata” para definir o modo de ser – subdesenvolvido? – do brasileiro médio. O fato é que, nos últimos anos, a viralatice nacional passou a ser citada como verdade insofismável por nove entre dez estrelas do jornalismo brasileiro.

Ainda outro dia o jornalista Luis Nassif, que aliás é formado em economia, disse num artigo que o Brasil não avança na gestão da coisa pública por causa do malfadado complexo de vira-lata. O cara não tem explicação para algo e põe na conta da viralatice. Sem essa. É hora de dar um basta nessa visão elitista das coisas.

Enquadrar os seres humanos numa categoria canina considerada inferior, que falta de senso! Entre os cachorros, os vira-latas são os mais felizes, saudáveis e descolados. Por isso não se pode definir como vira-lata quem não tenha vergonha de sê-lo.

O vira-lata é o suprassumo da miscigenação, o contrário das raças puras decantadas pelos nazistas e outros xenófobos. Vira-lata não tem pobrema: come quarqué comida, toma banho de chuva, resiste às doenças e não tem medo de cães amestrados.

Notícias de Pelotas

A gente só precisa se adaptar aos novos tempos. Em 2014, por exemplo, o futebol brasileiro levou 7 a 1 dos pastores alemães, mas não se pode tomar aquele banho de bola como uma lição definitiva, pois em 2018 os campeões do mundo caíram na primeira fase da Copa.

A viralatice é coisa muito relativa. O Brasil tem muitas coisas boas e só precisa evoluir para que possa deixar de ser malvisto pelos intelectuais brasileiros e pare de receber porcaria do chamado Primeiro Mundo.

Com a elevação dos nossos níveis educacionais, isso será superado naturalmente. Os degraus da elevação educacional são conhecidos: começam com a alfabetização, passam pela instrução primária e o ensino fundamental, seguem com o ensino médio e alcançam o ensino técnico ou a universidade, depois o mestrado, o doutorado, bolsas no exterior, daí decorrendo o desenvolvimento científico e tecnológico.

Levando tudo isso a sério, depois de algumas décadas um país pode ter uma sociedade mais igualitária e menos corrompida. E pode até se destacar no cenário mundial ganhando um Prêmio Nobel. Não foi jogando bola que a Alemanha ganhou uma centena de Nobel’s.

LEMBRETE DE OCASIÃO

“O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”

Millôr Fernandes

Geraldo Hasse é jornalista

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