Impone mucha volocondência

Em férias na Argentina, desfrutei por uma semana de um balneário “muy cómodo y agradable” en La Plata.

En la hora de las despedidas de los locales, reunidos en una plaza, fiz questão de cumprimentar um senhor vestido formalmente de terno e gravata, uma bizarria em la playa. Ele se parecia com Anthony Quinn, o ator de Zorba, o Grego. En realidad era Borges, o escritor.

Para minha surpresa, o gênio não era cego. Sua gravata era multicolorida, outro espanto. Ele sorria afavelmente. Apertei-lhe a mão direita, como soem cumprimentar-se os fidalgos, mas logo o gesto evoluiu para um cumprimento moderno, como fazem os jovens de hoje, quando verticalizam a saudação, unindo os antebraços enquanto estreitam fortemente as mãos — “un gesto cargado de afecto”, diria Borges, se fosse descrever o lance.

Nos sentamos en el cesped para una charla. Comentei o quanto eram grandes suas mãos, a mim parecia que ele possuía seis dedos em cada manopla de pescador. Pude constatar então que, de cada mão de Borges, saíam normalmente cinco dedos, mas à altura da primeira dobra os dedos médios se bifurcavam, passando a ter cada um duas pontas. En realidad, cada pai-de-todos terminava numa forquilha. Resultaria disso sua genialidade na escrita? Não lhe fiz tal pergunta. Ele sorria, condescendente.

O que lhe perguntei, isso sim, foi se, com tantos y tantos anos de vida, ainda sentia prazer em escrever; ele disse que sim, claro que sim, mas que para tanto era preciso dispor de mucha volocondência, palavra desconhecida para mim e formada, segundo ele, pela mistura de vontade + paciência.

Foi solamente así el sueño. Luego me desperté.

Geraldo Hasse

Porto Alegre, 17 de marzo de 2019

Geraldo Hasse é jornalista

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