Paula, trêmula, fez um discurso bonito. Leite gaguejou

Um colega disse que Paula Mascarenhas fez um discurso bonito ontem, no Piratini, no lançamento do Dicionário da Cultura Pampeana Sul-riograndense, de Aldyr Garcia Schlee.

Ele estava lá.

Registrou o colega, superficialmente:

“Ela (Paula) falou em imortalidade, acho que no sentido de fama, notoriedade.

Pra entender o raciocínio da Paula, teria que pegar o texto do discurso dela.

Duas laudas apetecíveis, que ela leu nervosa, com a voz trêmula e o colo arfante.

A mim pareceu que a fala de Paula foi intencionalmente ambígua, dubitativa ou dialética. Mas foi tão rica que o Eduardo, ao falar em seguida, disse literalmente que se sentiu sem ter o que dizer.

Talvez por isso ele tenha gaguejado tanto”.

O discurso de Paula, compartilhado por ela no Facebook:

Em artigo publicado nesta semana no Diário Popular de Pelotas, Paulo Luis Rosa Sousa diz que Schlee era um homem do campo a fora e não de Palácios. Uma homenagem no Salão Negrinho do Pastoreio, no entanto, talvez desfizesse nele a sensação de clausura arcaica e lhe permitisse seguir conectado com o que de melhor produziu a nossa liberdade pampeana: a obra de Simões Lopes Neto, escritor que o obcecava, e a sua própria obra.

Schlee, relembrado por Paula

A forma iconoclasta com que Schlee olhava para os fatos da vida e da literatura me fazem em certos momentos associá-lo ao pensamento sartreano, que negava peremptoriamente a imortalidade, mas caminhava inexoravelmente, do alto de seu talento, para ela. E me lembro bem do choro convulsivo e comovido do Schlee ao sentar-se ao lado da estátua de Simões na Praça Coronel Pedro Osório em Pelotas. Nega-se a fixação do mito, mas não se resiste aos afetos, permeados de sensações estéticas, produzidos por ele. Schlee caminha em direção ao mito. Ainda é cedo, reconheço.

Eu mesma, ainda penso nele como o amigo de sorriso fácil e olhos brilhantes, que encontrava em nossas caminhadas matinais na praça de todos os encontros. Mas não demora falaremos nele como aquele amigo de Simões que, como o velho Capitão, palmilhava as ruas retas de Pelotas. Como o grande escritor, o talento singular, capaz de dar voz tão verdadeira e original a tantas mulheres na obra-prima que criou com os Contos Gardelianos. Talvez seja injusto citar apenas esta obra literária de um escritor que produziu tantas coisas inesquecíveis. Mas para esta leitora, os Contos Gardelianos são suficientes para garantir a seu autor a presença entre os maiores.

Alguns desses homens, que ganham a imortalidade ainda que a contra-gosto, costumam deixar um testamento, seja para afirmar-lhes ou para contestar-lhes o que foram.

Com Sartre e As Palavras aconteceu o segundo movimento.

Em Schlee, temos seu Dicionário. Concebido, compilado, curtido, e escrito ao longo de muitas obras e de muito tempo vivido. Um dicionário absolutamente autoral, cujo universo é a literatura e a cultura pampeana sul-rio-grandense e platina, que tanto encantaram e povoaram o pensamento do Schlee. Um dicionário de nós, do que somos, do que nos fez.

Um dicionário que diz muito sobre o “pampa incomensurável”, paisagem familiar a seu autor, e que diz sobre a língua na qual fomos forjados, portanto, sobre uma matéria atávica que nos pertence coletivamente e que, não fosse eu uma sartriana, sobretudo num discurso em que citarei Sartre mais de uma vez, tenderia a chamar de nossa essência cultural.

O testamento de Aldyr Garcia Schlee não poderia ser mais mítico e mais explicativo do que ele próprio foi durante sua vida: um explorador e um encantador de linguagens, um esteta, um pesquisador, um homem da fronteira e do pampa, um poeta, um professor.

Só num dicionário, num elenco de palavras o escritor poderia reunir suas tantas facetas, seu talento, sua originalidade. Ele ganha com isso a imortalidade, pode até vir fazer companhia ao Simões no banco da praça, quem sabe, mas não se deixa fixar na rigidez dessa glória fria tão temida por Sartre: com seu dicionário lança um gesto a um futuro criativo e capaz de se renovar a cada página, a cada vocábulo empregado, a cada obra que ainda está por nascer.

‘Schlee caminha para ser mito’, diz Paula

Lançado Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense, de Aldyr Schlee

‘Dicionário valoriza identidade gaúcha e imortaliza obra de Schlee’

Paula é “Sartreana”

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